quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Crônica de guerra: História e Cultura em Guimarães Rosa e Richard Wagner


WALDETE FREITAS BARBOSA

Crônica de guerra: História e Cultura em Guimarães Rosa e Richard Wagner
Tendo por base a leitura das quatro crônicas de guerra de Guimarães Rosa, reunidas no volume Ave, palavra de 1970 e por reconhecer que sendo textos pouco conhecidos e estudados, necessário se faz apresentá-los e/ou reapresentá-los ao público acadêmico e aos leitores apreciadores das obras de Guimarães Rosa, com novas possibilidades de leituras, dentro de uma hermenêutica centrada no leitor, perspectiva esta, da Estética da Recepção formulada por Hans Robert Jauss[1] que afirma: “A vida histórica da obra literária não pode ser concebida sem a participação ativa de seu destinatário.”
Em face a essa realidade, aclarando de um lado, o processo atual que concretiza o efeito e o significado do texto para o leitor contemporâneo e, de outro, reconstrói o processo histórico pelo qual o texto é recebido e interpretado por leitores de tempos diversos, optou-se por continuar expondo breves leituras, com novos olhares interpretativos das crônicas de guerra, para que o público conheça e a partir de então leituras atuais e reflexivas possam ser feitas, atualizadas e analisadas.
Dentre as quatro crônicas, a saber: “O mau humor de Wotan” (29.02.1948 — Correio da Manhã); “A senhora dos segredos” (06.12.1952 — Correio da Manhã); “Homem, intentada viagem” (18.02.1961 — O Globo); “A velha” (03.06.1961 — O Globo), selecionou-se primeiramente a crônica “O mau humor de Wotan” destacando-se um viés histórico-cultural, no período correspondente à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Na crônica “O mau humor de Wotan” a história se passou na Europa, no século XX, quando a Polônia foi invadida pela Alemanha, dando início à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As personagens que fazem parte da narrativa são:  o cronista narrador, o soldado Hans-Helmut Heubel, Márion Madsen (esposa do soldado), Détty (filho do casal), Frau Madsen (mãe de Márion), Annelise (amiga de Márion), Capitão K. (esposo de Annelise), Dr. Schwartz (pai de Annelise).
O escritor cronista João Guimarães Rosa narra por meio de suas lembranças as experiências e ações vividas especificamente em Hamburgo/Alemanha, ao lado de amigos europeus. Diante disso, põe-se a retomar à causa ou série de causas que  o trouxeram a conhecer um amigo que a Europa o presenteou.  
Assim, o cronista inicia a narrativa esmiuçando o grão primigerador, isto é, o nó causal que impulsionou os laços de amizade com o casal europeu e por essa razão retorna a Márion Madsen, jovem alemã, que conforme o texto: “foi quase minha namorada, durante um dia, à beira do rio Alster, em 1938.” (Ave, Palavra, p. 21). Márion não cedeu ao amor do galante embaixador e cronista João Guimarães Rosa. O namoro não deu certo porque Márion já estava comprometida com outro João (Hans-Helmut Heubel). Leia-se o diálogo entre o cronista e Márion:
— “Vou-me casar e ter filhos...” — prometia.
— Para obedecer ao Fuehrer, Márionchen?
Tão graciosa que fosse, os olhos pegavam seriedade gris demais. Levou minuto para responder, e dava:
— “O Fuehrer não encontra tempo para amar... O Fuehrer sagrou-se à política...”
Não se podia insistir. Márion furtava a mirada, e tornou a mencionar casamento. Casou-se, dali a mais de ano, quinze dias talvez antes do ataque à Polônia. Passou a ser Frau Heubel, mulher de Hans-Helmut. Do modo, por falho namoro e pela forte camaradagem seguinte, vim a conhecer um meu amigo, que a Europa me descobriu. (Ave, Palavra, p. 22)
Márion Madsen mulher alemã, loura, olhos azuis e graciosa que fosse representa a pátria alemã com as tristes mulheres a chorar por seus homens que foram para a guerra em nome de um Fuehrer autoritário e por filhos e famílias que sofriam amargamente o caos da guerra, a dor da separação. O nome “Márion” que em hebraico apesar de significar amargura, no contexto cronístico indica serenidade, força vital e vontade de viver “já que o povo sonhava paz, e Hitler, pairando em Berchtesgaden, intuicionava sua paz forçosa.” (Ave, palavra, p.22).
 Em vista disso, essa descrição invalida uma trajetória de engajamento nazista em Márion e aviva-lhe a prudência como critério de sobrevivência. Por conseguinte, o narrador torna-se amigo do casal e acompanha o sofrimento de Márion que ficou angustiada por ver o marido partir para guerra.
Hans-Helmut Heubel o amigo europeu. Pode-se dizer que Hans representa o pacifismo e cultura alemã. O próprio nome em hebraico, significa agraciado por Deus, indicando uma pessoa com nobreza de caráter, sendo manso, calmo e alegre. Homem míope, com lentes grossas e de medíocre físico, era funcionário do Estado-Maior da Divisão, datilógrafo, motorista e por último, soldado, recrutado para guerra. Note-se os trechos a seguir:
“O coração de Hans-Helmut não dava, no coração, mínimo pouso à guerra, e, pois, o destino fora da guerra o suspendia. ” (Ave, Palavra, p. 24).  
“Mas Hans-Helmut se colocara, por poder de sua estrela: distribuído ao Estado-Maior da Divisão, dobrava funções de chofer e dactilógrafo. Escapara então ao rigor do drill prussiano, e ganhava número de probabilidades para sair vivo do comprido da guerra, chanças e estrapaças[2]. (Ave, palavra, p.24)
“Isso, aliviava-nos, porquanto Heubel míope e de medíocre físico, com lentes grossas. No escritório, sim, agradava imaginá-lo, sua prezada silhueta mercantil-metafísica[3], acudindo à palavra “burguês”, mais vivo sublimada, no que seu sentido tenha de menos obtuso. ” (Ave, palavra, p.24)
Era um homem prestador de serviço do Estado, mas mantinha seu pensamento, sua filosofia de vida. Dessa maneira não compactuava com as ideias que levariam o homem a continuar praticando os atos mais irracionais que se pudesse imaginar. Tinha preferência pela leitura da Bíblia, cria num destino plástico e minucioso, retocável pelo homem e assim aparentava jovialidade, alegria, leveza. Transpirava as delícias do mundo, o vinho, a paisagem, o bonito, o amor, a paz. O cronista anotava:
“Nos gostos, porém, tocavam-no subtilidades de latino: de preferência ao sólido, escolhia o leve e lépido, o bonito; aconselhava Márion a maquilar-se; e, sempre que vez, como tradição, baixava à Itália amada de Goethe, de Teutos e Cimbros, para comer melhor e tentar esportes de inverno, entre as mais formosas mulheres do mundo, em Cortina d’Ampezzo.”  (Ave, palavra, p.22)
“Nunca o notara mais honesto, desvincado. Resumindo em nada sua experiência guerreira, negava a realidade da guerra, fiel ao sentir certo e à disciplina do pensamento. (Ave, palavra, p.25)
Na crônica, encontramos reflexões que remetem ao problema dos direitos civis. No caso de Hans-Helmut, a obrigação de servir ao militarismo se impõem sobre o direito à liberdade, de maneira que a vida de Heubel ficou restrita ao campo repressivo dos interesses do Estado, uma vez que o Nazismo se caracterizou por exaltar a força e conseguiu controlar todos os aspectos da vida humana, submetendo-os ao Estado.
Em conversa na casa de Annelise,  Dr. Schwartz (pai de Annelise) perguntou a Hans-Helmut sobre a guerra, ao que respondeu:  — “Da guerra, mesmo, avistei só uns cavalos mortos, e cachorros, felizmente.” (Ave, palavra, p.27). Essa resposta não o agradou, pois sugeriu um tom irônico, desconsiderando a política sob a liderança de Hitler. Mais uma vez, pode-se entender que a filosofia de Hans não permitia que ele descrevesse o que realmente acontecia com os seres humanos em campo de batalha.
Hans-Helmut considerava as guerras injustas pois toda guerra é crime e nela se institui como direito o homicídio, o roubo, o incêndio, o estupro, a tortura, a espionagem, as expropriações, a invasão de domicílios e a devastação em maior grau possível.
Na compreensão de Hans o homem domina o mundo de fora, mas não tem domínio do próprio ser. Estavam vivendo em uma sociedade saturada de preconceitos e discriminações, terra da exclusão, em um ambiente social onde os homens queriam estar acima dos outros. Hitler queria dominar o mundo, mas juntamente com seus comandados eram dominados pelo mau humor arrogante, o mau humor de Wotan.
Quando Hans disse:  — “Da guerra, mesmo, avistei só uns cavalos mortos, e cachorros, felizmente. ” (Ave, palavra, p.27), ele estava sofrendo e em cada momento de dor, entrava num profundo processo de reflexão. Na linha de frente, muitos de cavalos morreram carregando homens, munições e armas pela exposição do tempo, doença e fome. Eram alvejados pelas tropas inimigas para enfraquecer o outro lado. Cachorros à serviço da guerra eram abandonados e não puderam contar com os humanos para cuidar deles e os proteger. Animais vivendo em zonas de conflito não tem escolha. Como muitos humanos, eles são vítimas de guerra que eles não fizeram e sobre os quais não tem controle.
Portanto, o cronista e seus amigos europeus sabiam que uma guerra declarada autorizaria todos esses atos criminosos que repugnam a sã razão. A exemplo do personagem Dr. Schwartz, homem sem grão de alma que discursava pisando na mão de uma criança, percebe-se a demonstração da arrogância do ser humano, uma espécie de “ramo apodrecido” aliado à linha de heil Hitler mais enfático juntamente com o filho, capitão K, pois Hans-Helmut foi transferido sob o comando dele (K) como inimigo. Veja-se outros fragmentos retirados da crônica O mau humor de Wotan:
“Você sabe, o Dr. Schw., pai de Annelise? Veja um homem crasso, persuadido, sem grão de alma. Vivendo de cor os conceitos: glória, o que mal sei, mais-pátria e raça... os desses. Discursam, pisando na mão de uma criança... ” (Ave, palavra, p.32)
“Vendo você o rolado olhar do Dr. Schwartz; daí, cerrou-se em emburro e carranca. Seu desdém era rancor, demonstrativo. ” (Ave, palavra, p.32)
“Dali a meia semana, Hans-Helmut reconvocado. Causal? Ao apresentar-se, avisaram-no: não continuava em Estado-Maior, sim na tropa. Teria urdido o quê, o capitão K.? Pois transferia-se Hans-Helmut à companhia sob comando dele, assim. Pensamos ainda isso a seu favor... Sabe como o capitão o viu? — “Aqui não haverá espécie de intimidade, tibieza, epicurismos! ” — repelente, vexante. ” (Ave, palavra, p.33)
            Assim, o cronista, amigo brasileiro anota a conversa desesperada com Márion, pois seu amigo partiu para guerra sem treinamento, desajeitado para o exército e que no momento de ofensiva teve seu triste final. Márion, com muita tristeza, dizia que o que mais oprimia Hans-Helmut não era o medo, o risco, ânsia de livrar-se, mas o horror enorme à maldade .... Assim puderam matá-lo... O narrador cronista teve que dar a triste notícia:
Ele, Márion. Não voltará; não o veremos. Veio a exata fórmula, papel tarjado. Hans-Helmut Heubel passou, durante um assalto, e deram-lhe ao corpo a cruz-de-ferro. Seus traços ficarão em chão, ali onde teve de caber no grande fenômeno, para lá do Dnieper, nas estepes de Nogai. (Ave, palavra, p.33)
            O cronista com tristeza, encerra a crônica expressando o quanto considerava seu amigo europeu: “Ninguém fale, porém, que ele mais não existe, nem que seja inútil hipótese sua concepção do destino e da vida. Ou que um dia não ve­nham a ser “bem-aventurados os mansos, porque eles herda­rão a terra” (Ave, palavra, p.33). A reflexão do escritor Guimarães Rosa sugere que violência gera violência e que todo opressor um dia será derrubado pelos oprimidos. Hans-Helmut Heubel não sofria como um miserável ou um infeliz. Em cada momento de dor, entrava num profundo processo de reflexão e diálogo caminhando dentro de si mesmo enquanto caminhava para seu destino final.
Em face do exposto acima discorre-se agora sobre a relação da crônica “O mau humor de Wotan” com a obra de Richard Wagner “O anel dos Nibelungos”. É indiscutível que Guimarães Rosa elaborou um título significativo para essa crônica. Deixou um texto complexo, denso, estimulando o leitor a pesquisar as palavras e viajar por textos literários e não literários.
Dentre outros aspectos, é importante tomar conhecimento de que Alemanha de Guimarães Rosa é historicamente chamada de Das Land der Dichter und Denker (A terra dos poetas e pensadores). Além disso, a cultura alemã tem seu início muito antes do surgimento da Alemanha como um estado-nação e abrange todo o mundo falante do alemão. 
Em entrevista a Güntter Lorenz, Guimarães Rosa afirmou conhecer a literatura alemã. Admirava Goethe, Thomas Mann, Franz Kafka, Freud e adicionalmente a literatura dos autores russos Dostoiévski, Tolstoi e franceses Flaubert, Balzac, pois, de acordo com a declaração do escritor brasileiro, todos esses o influenciaram intensamente. Entretanto, ao mesmo tempo em que denuncia as atrocidades que ocorreram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) resgata a Alemanha cultural, seus aspectos positivos, para que não só esse país, mas a Europa, não ficassem rotulados pela imagem da destruição.
 Outrossim que chama atenção é que em meio à narrativa cotidiana do horror da guerra, o cronista brasileiro Guimarães Rosa, além de fazer referências a dois nomes importantes como Goethe e Strauss, enfatiza seguimentos da obra de Richard Wagner especificamente a ópera “O anel dos Nibelungos” na qual acredita-se que João Guimarães Rosa inspirou-se para construir o título da crônica “O mau humor de Wotan” trançando um paralelo com alguns aspectos mitológicos presentes na obra de Richarde Wagner.
Como elementos marcantes, no texto cronístico, convém mencionar a música tocada ao ar livre, a Logge, deus do fogo, que instigava os senhores de Walhalla no Prólogo dos Nibelungos, e a representação das Nornas (personagens que também se relacionam às crônicas “A senhora dos segredos” (06.12.1952) e “A velha” (03.06.1961). Note-se trecho da conversa do cronista com Hans-Helmut:
“Mas, a seguir, calava-me, com o meu amigo a citar Goebbels, o sinistro e astuto, que induzia a Alemanha, de fora a fundo, com a mesma inteligência miasmática[4], solta, inumana, com que Logge, o deus do fogo, instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibelungen. ” (Ave, palavra, p.24)
“Quem irá, porém, esmiuçar o grão primigerador, no âmago de montanha, ou o nó causal num recruzar-se de fios, dos milhões desses que fiam as Nornas? (Ave, palavra, p.24)
 Sem dúvida, é de fundamental importância mencionar que Richard Wagner nasceu em Leipzig, em 1813. Interessou-se cedo pelo teatro e pela música. Em Zurique redigi o poema e inicia a composição da tetralogia, “O anel dos Nibelungos” [Der Ring des Nibelungen]. Tanto a música como o libreto foram escritos entre 1869 e 1874.
Saliente-se ainda que dela fazem parte as óperas: O ouro do Reno, As Valquírias, Siegfried e o Crepúsculo dos Deuses. A ópera final, Götterdämmerung, é baseada no poema do século XII  Nibelungenlied, o qual foi a inspiração original para  “O Anel dos Nibelungos”.     Com efeito o centro da história é o anel mágico forjado pelo anão Alberich, o Nibelungo do título, a partir o ouro roubado do rio Reno quando as donzelas do Reno se distraíram. Diversas personagens míticas lutam pela posse do objeto, incluindo Wotan, o chefe dos deuses. Os acontecimentos são bastante influenciados pelos planos de Wotan, que leva gerações para superar as próprias limitações.
Veja-se a seguir a possibilidade de uma leitura intertextual da crônica “O mau humor de Wotan” com a leitura do Prólogo, cena introdutória, em que, se fornecem os dados prévios elucidativos do enredo da tetralogia “O anel dos Nibelungos” do maestro e compositor alemão Richard Wagner.
“Filhas de Erda, as três Nornas[5] estão próximas à rocha de Brünnhilde, tecendo o fio do destino. É noite e elas cantam sobre o passado, como o fogo erguido por Logge[6] a mando de Wotan para circundar Brünnhilde (Brunilda). Elas contam a origem da lança de Wotan, o subjugamento de Logge, o roubo do ouro do Reno pelo anão Alberich. O fio se embaraça na ponta de uma rocha, cortando-o parcialmente:
 “Quem irá, porém, esmiuçar o grão primigerador, no âmago de montanha, ou o nó causal num recruzar-se de fios, dos milhões desses que fiam as Nornas? ” (Ave, palavra, p.24)
“Mas, a seguir, calava-me, com o meu amigo a citar Goebbels, o sinistro e astuto, que induzia a Alemanha, de fora a fundo, com a mesma inteligência miasmática, solta, inumana, com que Logge, o deus do fogo, instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibelungen. (Ave, palavra, p.26)
As Nornas continuam narrando a maldição do anel e quando Wotan ateará fogo à Walhalla[7] para marcar o fim dos deuses. Inesperadamente, o fio se rompe, e as Nornas desaparecem nas profundezas, lamentando a perda do seu conhecimento.
A valquíria  Brünnhilde (Brunilda), a mais querida das nove pelo pai Wotan, é o tema da segunda ópera. Como as irmãs, é encarregada de levar para o Walhala[8] as almas dos guerreiros mortos.
Ainda sobre a tetralogia, Brünnhilde recebe a visita de uma de suas irmãs a valquíria Waltraute e pergunta o motivo da visita, já que Wotan havia proibido; também pergunta se seu pai já estava mais brando, e cita sua felicidade com Siegfried. Claramente abalada desde a chegada, a irmã responde que havia chegado por questões mais sérias.
Waltraute relata que, desde a exclusão de Brünnhilde, Wotan já não as enviava para as batalhas, ignorando os heróis, voltando para suas peregrinações. Ele sempre tinha em mãos os fragmentos de sua lança. Teme perdê-la, pois ela possui todos os tratados e barganhas que ele já havia feito, tudo o que o fortalecia. O cronista João Guimarães Rosa como profundo pesquisador da história alemã é conhecedor dos caminhos, tratados e barganhas que levaram Hitler ao poder.                          
Wotan havia ordenado que os galhos da Yggdrasil, a Árvore do Mundo, fossem empilhados ao redor da Grande Sala da Walhalla.  Também havia enviado seus corvos para espiar o mundo e o informar sobre todas as notícias; só poderiam voltar para trazer boas notícias. Descrente, Wotan já esperava o fim da Walhalla. As valquírias ainda sugeriram que o fim poderia ser evitado se Brünnhilde devolvesse o anel ao seu dono de direito, as donzelas do Reno.                                   
A leitura do poema a seguir comprova a hipótese de que o título “O mau humor de Wotan” foi inspirado no prólogo de Richard Wagner bem como os reflexos da obra no desenrolar das narrativas cronística, não só para denunciar um período escuro, pode-se dizer “o caos” da história, espírito de catástrofe, um tempo difícil, mas também para oferecer uma reflexão, sobre a Alemanha, por meio da representação do homem alemão e assim promover arte e cultura.

Waltraute [Valquíria, irmã de Brünnhild]
Ouve com atenção
O que te vou dizer!
Desde que se separou de ti,
Wotan nunca mais nos enviou
Para o campo de batalha;
Cavalgávamos juntas
Desorientadas e indecisas,
o Pai dos Eleitos evitava
os corajosos heróis de Walhalla[9]
Sozinho, a cavalo
sem descanso nem paz
foi como viajante que pelo mundo vagueou.
Há pouco regressou;
nas suas mãos trazia
os pedaços da sua lança
que um herói despedaçara.
Com um gesto, em silêncio,
deu ordem aos nobres do Walhalla
que fossem à floresta
abater o freixo do mundo.
Ordenou que amontoassem os pedaços do trono
Numa enorme pira
Em redor das moradas dos deuses
Reuniu o
conselho dos deuses
e tomou o seu
lugar no trono:
comandou que os deuses inquietos
se sentassem à sua volta; [...]

A segunda Norna
[ata o fio que a irmã lhe atirou numa saliência da rocha junto à entrada da gruta]

Wotan gravou
na sua lança
as runas[10]  dos contratos
inspirados pela lealdade:
assim deteve ele o mundo na sua mão.
Um herói destemido
Quebrou em combate a lança de Wotan.
Estava feita em pedaços
a sagrada lança dos pactos.
Então Wotan ordenou
Aos heróis que vivem em Walhalla que despedaçassem
O tronco e os ramos apodrecidos
do Freixo do mundo:
A árvore caiu,
para sempre secou a fonte.
Assim, hoje prendo o fio
A uma rocha pontiaguda
Canta irmã
Sou eu quem to atira
Sabes os que irá acontecer?
Ao se examinar o texto de Richard Wagner é possível refletir em algumas palavras ou expressões chave relacionadas ao Fuehrer como por exemplo: “separou”, “Wotan”, “campo de batalha”, “sem descanso nem paz”, “ordenou” e “caos”. Essas palavras reunidas formam um freixo, simbolizando a manifestação da força de um partido político conduzido por um líder autoritário. A Alemanha estava em convulsão. O Fuehrer conseguira arrebatar o povo alemão com seu discurso fascista e racista, dirigido principalmente contra judeus.
No mundo inteiro começaram a surgir ditadores inspirados em Hitler. Está registrado na história do Brasil que Getúlio Vargas decreta o Estado Novo e proíbe a entrada dos Judeus no país. Nesse ínterim, o cronista e seus amigos europeus vivem intensa e perigosamente. No trecho a seguir, pode-se perceber uma crítica do cronista em conversa amistosa com Hans-Helmut:
“Passamos a nos encontrar com mais freqüência. Amistosos, discutimos. Ele abria argumentação justa e desconsolada, lógica tranqüila: — “Sul-americano, você deseja a vitória dos países conservadores. Mas, nós, alemães, mesmo padecendo o Nazismo, como podemos querer a derrota? Que fazer? ” (Ave, palavra, p.26)
“Eu buscava contra Hitler um mane-téquel-fares[11], a catástrofe final dos raivados devastadores. Mas, a seguir, calava-me, com o meu amigo a citar Goebbels[12], o sinistro e astuto, que induzia a Alemanha, de fora a fundo, com a mesma inteligência miasmática, solta, inumana, com que Logge, o deus do fogo, instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibelungen. ” (Ave, palavra, p.26)
Some-se a isto, a floresta pode simbolizar o perigo da guerra com a presença dos batalhões, os exércitos, como formigas selvagens, ordenados por Hitler, para abater o que julgava ser o inimigo e perigo para aqueles que perderam seu caminho na vida lutando nos front, como aconteceu com o personagem Hans-Helmut:
“Sim, todos nós. Los! Vorwaerts[13]! Milhões, de vez, penetram no Leste — rasgam a Rússia — máquinas de combate rolam através da estepe, como formigas selvagens.” (Ave, palavra, p.31)
“... E o pior é ter de avançar, dias inteiros, pela planície que nunca termina. Meus olhos já estão cansados. Raramente enxergo um trigal, choupanas. Chove, e a lama é aferrada, árdua, O russo se retrai com tal rapidez, que nunca os vemos. ” (Ave, palavra, p.31)
 O Freixo do mundo, representa o líder alemão como centro do mundo, detentor de uma política e ideologia desumana. Hitler deteve o mundo em suas mãos. Os que o elegeram, cumpriram juramento de fidelidade.  Os traidores eram considerados ramos apodrecidos. Como Wotan tinha os fragmentos de sua lança, ou seja, seus objetivos traçados.  Temia perdê-la, pois ela possuía todos os tratados e barganhas que ele já havia feito, tudo o que o fortalecia, assim Hitler intentava o poderio e matava a quem queria para não atrapalharem seus planos. Atente-se para o fragmento textual de Wagner.
“Wotan gravou
na sua lança
as runas   dos contratos
inspirados pela lealdade:
assim deteve ele o mundo na sua mão.
O final do texto, pode-se relacionar à queda de Hitler, quando um herói destemido, no caso os países aliados, quebram a lança de combate do líder alemão e despedaçam o Freixo do mundo, a árvore imponente.
Um herói destemido
Quebrou em combate a lança de Wotan.
Estava feita em pedaços
a sagrada lança dos pactos.
Então Wotan ordenou
Aos heróis que vivem em Walhalla que despedaçassem
O tronco e os ramos apodrecidos
do Freixo do mundo.

“E a Luftwaffe quebrava o seu martelo na bigorna[14] inglesa ” (Ave, palavra, p.25). No sentido figurado, estar entre a bigorna e o martelo, é achar-se entre duas decisões opostas, com a perspectiva de ser vítima em qualquer das alternativas. A bigorna quanto mais é batida, mas dura se torna. O martelo representa a Alemanha. A bigorna representa a Inglaterra, o herói destemido.
Depois de invadir a França, Hitler e seus comandados aproveitaram a fragilidade militar de seus inimigos para controlar a Inglaterra. No entanto, os nazistas não esperavam perder as batalhas que ameaçaram seriamente a hegemonia territorial inglesa. A inesperada vitória dos britânicos abriu caminho para uma vindoura derrocada ao Exército Alemão que, a partir de 1943, não resistiu à força de seus inimigos. No verão de 1940 a RAF (Royal Air Force) Aviação Inglesa consegue rebater os ataques da Luftwaffe (Força Aérea Alemã).
Como Wotan, Hitler teve sua lança despedaçada, quebrando todos os seus planos e objetivos, assim o  Fuehrer nazista foi derrotado com seus tratados de poder absoluto. Wotan com seu mau humor infundado ordenou aos heróis que vivem em Walhalla que despedaçassem o tronco e os ramos apodrecidos do Freixo do mundo, do mesmo modo Hitler ordena a destruição do seu Walhalla (pode-se dizer seu quartel general ou esconderijo subterrâneo) juntamente com os troncos e ramos apodrecidos, ou seja, todos que seguiam à linha de heil Hitler mais enfático e o traíram.
Considerando o texto wagneriano, entende-se a resposta às perguntas sobre a perspectiva de Guimarães Rosa, confirmando, primeiramente, o que ele mesmo pensava sobre a política. Em entrevista concedida a Günter Lorenz, o diplomata afirma: “A política é desumana porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Eu não sou um homem político, justamente porque amo o homem. Deveríamos abolir a política”.  (In: COUTINHO, Eduardo F. (org.).  p. 67)
Guimarães Rosa explicou que aprovava que um escritor discutisse sobre política, apenas quando desse um acento político, às suas obras, e não quando se mostrasse politicamente neutro em suas obras, isso mais no sentido da não participação nas ninharias do dia a dia político, pois esteve sempre do lado daqueles que arcaram com a responsabilidade e não dos que a negaram.
A crônica O mau humor de Wotan é uma mistura de sentimentos, denúncia, cultura, idiomas, principalmente quando se percebe a intertextualidade da crônica com a lenda dos Nibelungos. Acontece uma mistura das antigas tradições orais com eventos e personagens históricos dos séculos V e VI.
Após essa análise, pode-se legitimar a hipótese de que Guimarães Rosa dá ênfase ao resgate cultural alemão. A referência a Richard Wagner, serviu de travessia para o encontro com outras leituras, ampliando o horizonte de expectativas com relação ao conhecimento e diálogo com a literatura universal.
Recorrendo, à leitura proposta por Márcia Hávila Mooci de Silva (s/d) que discute sobre as sete teses de Hans Robert Jauss com o objetivo de possibilitar através da Literatura a transformação e emancipação do ser humano, considero a sétima tese de Hans Robert Jauss que além de observar os aspectos diacrônicos (recepção ao longo da história) e sincrônico (aspecto atual do texto), tal história deve também voltar-se para os efeitos da literatura na vida prática de seus receptores.
Assim, ao envolver a experiência cotidiana do leitor, Jauss pretende que a literatura seja pensada não apenas em termos de seus efeitos estéticos, mas também a partir dos efeitos éticos, sociais, psicológicos que possa suscitar. Ela seria na concepção desse autor, capaz de romper com a percepção comum que o leitor tem dos próprios fatos da vida cotidiana quando permite “antecipar possibilidades não concretizadas, expandir o espaço limitado do comportamento social rumo a novos desejos, pretensões e objetivos, abrindo assim, novos caminhos para experiência futura” (JAUSS, 1994, p. 52)
Para Jauss, a distância entre história e literatura e entre estética e história pode ser diminuída quando a história literária é capaz de gerar a função emancipadora da literatura, que, ao transformar percepções da vida, é capaz de propor novas formas de vê-la e de relacionar-se com ela. Isso se torna realidade neste trabalho que se expõe com o objetivo de transmitir novas possibilidades de leitura, outorgando emancipação ao texto em estudo, para que outros pesquisadores façam novas leituras e assim divulguem novos olhares interpretativos das crônicas rosianas.
Sem dúvida, as ideias de Jauss contribuíram significativamente para que se repensasse o caráter tanto estético quanto historiográfico da literatura. Se os textos são passíveis de diferentes recepções porque lidos por públicos diferentes no tempo e no espaço, o status desses textos também se modifica, o que força certa reformulação dos critérios que estabelecem o que é e o que não é literatura. 
Como mostra Jauss, esses novos critérios são estabelecidos através do “experiênciar dinâmico da obra literária por parte de seus leitores” (JAUSS, 1994, p 24). Mediante o exposto, assim se dá com o texto em análise - O mau humor de Wotan -que embora seja uma crônica pouco conhecida transforma-se a partir de então  em um recurso literário familiar para o público acadêmico e de apreciadores das obras de Guimarães Rosa, pois o diálogo estabelecido entre o texto e o leitor se atualizará durante cada leitura de for feita.
                       





REFERÊNCIAS
01. ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 562 p.
02. COSTA, Márcia Hávila Mocci da Silva. Estética da recepção e teoria do efeito. Atualizado em: 18 abr. 2011. Acesso em 10 jan 2018. Disponível em: http://abiliopacheco.files.wordpress.com/2011/11/est recep teoria efeito.pdf.
03. HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. Trad. Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. 598 p.
04. ISER, W. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Trad. Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1999.
05. JAUSS, Hans Robert. A Literatura e o leitor: textos de estética da recepção et al. ; coordenação e tradução de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. 213 p.
06.  ________. A Estética da Recepção: colocações gerais. In: LIMA, Luiz Costa (sel.). A literatura e o leitor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 43-61.
07.  ________. A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Ática, 1994. 78 p.
08.  ________. O prazer estético e as experiências fundamentais da Poiesis, Aisthesis e Katharsis. In: LIMA, Luis Costa (sel.). A literatura e o leitor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 63-82.
09. LORENZ, Günter W. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. v. 6, p. 67.
10. MARTINS, Nilce Sant’Anna. O Léxico de Guimarães Rosa. 3 ed. revisada. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo. 2008. 536 p.
11. ROSA, João Guimarães. O mau humor de Wotan. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 fev. 1948.
12. ROSA, Guimarães. “O mau humor de Wotan”. In: Ave, palavra. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.

ELETRÔNICOS

13. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Götterdämmerung. Acesso em 02.12.2010.
14. Disponível em http://www.saocarlos.pt/fotos/p_s_crepúsculo_final.pdf. Acesso em 02.12.2010


[1] JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo, 1970. p.169.
[2] Chanças – oportunidade, ocasião favorável. Estrapaças – atrapalhação, aflição, também se pode pensar numa var. de trapaçar, com o sentido de ardil, artifício, estratagema.


[4] Miasmática: corrupta, perversa
[5] Nornas: são três anciãs da mitologia nórdica que moram em Asgard. Tem como função tecer o destino dos deuses e homens e zelar pelo cumprimento e conservação das leis que regem as realidades dos homens.
[6] Logge: deus do fogo
[7] Walhalla: majestoso e enorme salão com 504 portas, situado em Asgard, dominado pelo deus Odin. Para este local eram levadas as almas dos guerreiros mortos.


[10] Runas: significa “secreto”. Alfabeto nórdico que rege e governa a vida dos deuses e dos homens.
[11] Mane-Téquel-Fares: Alusão explícita a profecia Bíblica do Livro de Daniel, 5:25-28
[12] Goebbels: Paul Joseph Goebbels (Mönchengladbach, 29 de outubro de 1897 — Berlim, 1 de maio de 1945) foi o ministro do Povo e da Propaganda de Adolf Hitler (Propagandaminister) na Alemanha Nazista, exercendo severo controle sobre as instituições educacionais e os meios de comunicação.
[13] Los! Vorwaerts!: para frente, avante.
[14] Bigorna: ferramenta utilizada por ferreiros