ROSA, João Guimarães. Ave, Palavra;
nota introdutória de Paulo Rónai. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. 274 p.
[3] O MAU HUMOR DE WOTAN
Hans-Helmut Heubel relia a Cabala ou a Bíblia e cria num destino plástico
e minucioso, retocável pelo homem. Por saudade, com isso me ponho em remontar
à causa ou série de causas que me trouxeram a conhecê-lo. E retorno a Márion.
Márion Madsen, gentil afino de origens — alemã, dinamarquesa e belga —
foi rapidamente quase minha namorada, durante um dia, à beira do Alster, em
1938. Maduros os morangos, tendo flor os castanheiros, já se falava com ira na
Inglaterra, por causa da Tchecoslováquia. Mas os jovens casais remavam seus
barcos para debaixo dos salgueiros-chorões, paravam por lá escondido tempo, só
saíam para se encostar no cais da Uhlenhorster-Faerhaus, onde garçons de blusa
branca serviam-lhes sucos de maçãs e sorvetes, enquanto a orquestra, ao livre,
solvia Wagner e Strauss. Mesmo assim, Márion, loura entre canário e giesta e
mais num tailleur de azul só visto em
asas de borboletas, hesitava em ceder primaverazmente às gratidões do amor.
— “Vou-me casar e ter filhos...” — prometia.
— Para obedecer ao Fuehrer, Márionchen?
Tão graciosa que fosse, os olhos pegavam seriedade gris demais. Levou
minuto para responder, e dava:
— “O Fuehrer não encontra tempo
para amar... O Fuehrer sagrou-se à
política...”
Não se podia insistir. Márion furtava a mirada, e tornou a mencionar
casamento. Casou-se, dali a mais de ano, quinze dias talvez antes do ataque à
Polônia. Passou a ser Frau Heubel,
mulher de Hans-Helmut. Do modo, por falho namoro e pela forte camaradagem
seguinte, vim a conhecer um meu amigo, que a Europa me descobriu.
Conseguiram eles do Finanzamt algumas
divisas, e foram para lua-de-mel em Bruxelas. Estavam em paz por lá, durante
Mlawa, durante Kutno e a destruição de Varsóvia. E nisso houve qualquer lógica
recerta, porquanto Hans-Helmut formara-se o menos belicoso dos homens, nada
marcial, bem mesmo nem germânico, a não ser pelo estimar a ordem em trabalho contínuo,
[4] mais uma profundidade nebulosa no indagar a vida e o pausado método de
existir.
Nos gostos, porém, tocavam-no subtilidades de latino: de preferência ao
sólido, escolhia o leve e lépido, o bonito; aconselhava Márion a maquilar-se;
e, sempre que vez, como tradição, baixava à Itália amada de Goethe, de Teutos
e Cimbros, para comer melhor e tentar esportes de inverno, entre as mais
formosas mulheres do mundo, em Cortina d’Ampezzo.
Ao voltarem a Hamburgo, a Polônia estava finda. Falava-se na paz, o povo
sonhava paz, e Hitler, pairando em Berchtesgaden, intuicionava sua paz forçosa.
Hans-Helmut apresentou-se, mas não o recrutaram: aguardasse convocação.
Em feito, a sorte com ele trabalhava; e que a merecia, a mais de entreter a
certeza íntima e preconcebido otimismo — meios que põem em favor da gente o
exato destino correto.
Por todo o outono andávamos, e velhas eram nossas conversas. Meu amigo
tinha sensato interesse por tudo o que do Brasil, e eu votava-o a um dia para
cá migrar, dono de qualquer fábrica, de bebidas, por exemplo. Então ia-se a
outra cerveja e entrando pelos grandes universais assuntos. Fora uma judia a
derradeira amiguinha de Heubel, que, e pelo dito, não simpatizaria com o
Partido. Mas Márion, romântica, tonta e femininamente prenhe de prudência,
experimentava aos poucos trazê-lo à linha de heil Hitler mais enfático. Minha aliada era a mãe, Frau Madsen, que me fazia repetir,
seguidos, cada discurso de Churchill. Lutava-se, em sinuoso, pelo direito de
uma alma, nos amáveis serões em que brincavam-se adivinhações inocentes ou se
jogava o skat.
Por contra, Hans-Helmut depressa converteu Márion à sua essencial
filosofia. De maneira, ela menos se acabrunhou, quando o chamaram enfim à
farda, em dezembro.
— “Nada lhe acontecerá...” — recitava, sacudindo a amarela cabecinha,
sorrindo assim e parda-azulmente nos olhos. E foi despreocupado que Hans-Helmut
partiu, envergava o feldgrau, plantado nas grandes botas de campanha;
só com sombra de prévia saudade, decerto.
O inverno de 1939-1940 foi muito. Passeando em cima do Alster gelado,
Márion contava-nos do marido. Não era a vida cômoda, no acampamento de Münster,
onde metade da tropa adoecia de pneumonia ou gripe, enquanto o resto se
adestrava sem cessa, suando a se arrastar na neve, horas, a 30º sob zero, naquela charneca de
Lueneburg.
[5] Mas Hans-Helmut se colocara, por poder de sua estrela: distribuído ao
Estado-Maior da Divisão, dobrava funções de chofer e dactilógrafo. Escapara
então ao rigor do drill prussiano, e
ganhava número de probabilidades para sair vivo do comprido da guerra, chanças
e estrapaças.
Isso, aliviava-nos, porquanto Heubel míope e de medíocre físico, com
lentes grossas. No escritório, sim, agradava imaginá-lo, sua prezada silhueta
mercantil-metafísica, acudindo à palavra “burguês”, mais vivo sublimada, no
que seu sentido tenha de menos obtuso.
Mas, passaram o frio, o inverno, pela Lombardsbruecke trens com soldados,
os dias de Oslo, Narvik e Lillehammer. Vezes, mesmo Márion sabia de nada. Só
que Hans-Helmut vivo, com saudade e saúde. Não esteve na Noruega. Esteve na
França. Depois de blitz e armistício,
dele tivemos carta.
Achava-se aboletado, cerca de Chantilly, em castelo, onde havia um parque
ameno e infindáveis vinhos, adega soberana. Eram cartas vagarosas, graças,
inclusive, a crescente amor pela França. Recomecei a aceitar sua tese:
Hans-Helmut não dava, no coração, mínimo pouso à guerra, e pois o destino fora
da guerra o suspendia.
Quem irá, porém, esmiuçar o grão primigerador, no âmago de montanha, ou
o nó causal num recruzar-se de fios, dos milhões desses que fiam as Nomas?
Porque todo minuto poderia ser uma origem.
Por caso, talvez, aquele em que Márion conheceu Annelise. Difícil, mais,
todavia entender: por que teve Márion de vir a conhecer Annelise? E entanto
tudo se veja começado descuidada ou deixadamente, em Heubel mesmo — para
aceitarmos sua crença pia.
Annelise, tão amena quanto Márion, era mulher do Capitão K., também
hamburguês, também na França, em Chantilly. As duas se fizeram amigas; cartas vindo
e indo, Hans-Helmut e o Capitão inteiraram-se amigos, talmente. Eram, bem, da
mesma idade, as esposas tinham achado a fraternização, e mesmo não seria isso
incomum, nos exércitos do II.º e 1/2 Reich. Mas, pois, decorreu que a 117ª
Divisão retornou a Hamburgo, para casernar, enquanto nós, nós outros, chorávamos
ainda a França, e a Luftwaffe
quebrava o seu martelo na bigorna inglesa.
Hans-Helmut voltou corado, mais gordo. Sentava-lhe razoável o uniforme,
realçando o ar de bonomia clara, que fazia a gente gostar mais dele. Trouxera,
além dos presentes de Márion, um corte de pano para smoking e dúzia de garrafas
do bom [6] borgo|nha. Trazia também a França. Sim, requintara-se, em várias
coisas.
— “Les Français, vous savez... Tja, die
Franzosen... Sabem beber, inventaram essa
arte... Um cálice, antes do jantar, l’apéro,
un verre... O conhaque, à noite: Encore
une fine! Pà”asit, ma p’tite!” — tocava copo com Márion. — “Tu es pas mal... Je t’aime...”
Contava que, em Paris, duas mulheres, sorte de elegantes, o tinham
convidado, juntas, para hora íntima.
— “Doch!... Acendi um cigarro, nongschalaantmantt... E respondi: — Oon
leh vverrá... Oh, douce France!”
Márion sorria, segura de sua estricta lealdade nórdica. Os dois se
namoravam, quais e quando. Ai alguém perguntou: —“E a guerra?”
Heubel endireitou o busto, alisou devagar a túnica, sério
desesperadamente.
— Gut... nossa Divisão vinha na
retaguarda... no caminho quase não houvera combates... So war’s...”
De fim, pimpou na ponta do nariz um dedo, por engraçado trejeito
remexendo os lábios.
“Da guerra, vi apenas cavalos e cachorros mortos, felizmente...”
Nunca o notara mais honesto, desvincado. Resumindo em nada sua
experiência guerreira, negava a realidade da guerra, fiel ao sentir certo e à
disciplina do pensamento. Tornou ao copo, beijou a mão de Márion, e repetiu
aquilo de corpos animais, num tom medido, do modo com que falam os lentos
hanseatas.
— “Da guerra, mesmo, avistei só uns cavalos mortos, e cachorros,
felizmente...”
Era um nenhum relato, dito de acurtar conversa. Contudo, tomara força e
forma: solta, concisa, fácil para guardada; e ficara assim coisa: que nem uma
moedinha de dez pfennig, um palito, um baraço. Nenhum de nós
porém pensava nisso. Recordo, o borgonha cheirava a cravo, tinha gosto de
avelãs, de saliva de mulher amada. E a rádio de Breslau enviava-nos
cançãozinha:
... “Ach
Elslein, liebes Elselein,
wie gern war ich bei dir!”
Hans-Helmut trabalhava com o pai, proprietário em Halstembeck de um
viveiro de plantas, e, como interessava aos alemães o reflorestamento, não lhe
foi de muito obter um u.k. — licença
de desmobilização temporária. Passamos a nos encontrar com [7] mais
freqüência. Amistosos, discutimos. Ele abria argumentação justa e desconsolada,
lógica tranqüila: — “Sul-americano, você deseja a vitória dos países conservadores.
Mas, nós, alemães, mesmo padecendo o Nazismo, como podemos querer a derrota?
Que fazer?”
Eu buscava contra Hitler um mane-téquel-fares, a catástrofe final dos raivados
devastadores. Mas, a seguir, calava-me, com o meu amigo a citar Goebbels, o
sinistro e astuto, que induzia a Alemanha, de fora a fundo, com a mesma
inteligência miasmática, solta, inumana, com que Logge, o deus do fogo,
instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibelungen.
Também findara o borgonha, bebia-se do mosela. Zuniam nas noites os
aviões da RAF, entre sustos e estampidos. Desfolhavam-se as tílias da
Glockengiesserwall, os olmos da rua Heimhuder. E vinha-se para fim do outono,
com tristeza e o escuro, como se descendo por subterrâneo.
E ora porém, pois, conforme, os maiores dias vão assim no comum, sem
avisações; a não ser quando tudo pode ser conferido, depois. Márion disse:
— “Jantamos amanhã com Annelise e o marido.”
— “Ach so,” — entredisse Heubel
— “vamos à casa do Capitão K., meu amigo.”
Soube, mais, que com o casal K. morava o Dr. Schw., sogro, médico
retirado, que gostava de cursar conferências sobre quaisquer temas. Daí, aí,
gravei ainda que Márion e a capitãzinha continuavam a avistar-se, nessa pausa
da guerra. E, outro-tudo que a tanto se prendesse, foi falado longe dos meus
ouvidos, ocupados, ali e aqui, a apanhar outras conversas.
— “Ah, se ao menos até o Natal acabasse esta guerra!” — clamava-se, longe
das presenças da Gestapo. — “Ah” —rogava Márion — “esta guerra acabasse!”
Mas dizia e esplendia, ostensiva, preparando as roupinhas do bebê.
Notem: antes do Natal, a mão do fatum volveu a Heubel, num meio gesto:
foi ele chamado de novo às filas, para o acampamento de Münster, onde veteranos
infantes voltaram a aprender, de a a z, dia sobre dia, as partes de todo
combater.
— “Nosso Hans-Helmut continua guiando automóveis e dactilografando?”
— “Oh, sim, sim, sim...” — Márion se bendizia, olhos de ver anjos no ar,
o ventre manso e tanto se arredondando.
Pelo inverno, fora o regelo e frimas, tudo era o ruim vento de leste e
aquela rotina da guerra. Vi Márion menos vezes. [8] Acon|teceu, raro também,
que Hans-Helmut viesse a Hamburgo, por breves licenças. Delas, uma para
conhecer o filho — Détty, preclaro, ridor, tão gorduchinho — chegado, como via
geral os meninos, guardando ainda o exser de algum país de ideidade.
Seguindo assim, seja, semanas, roncavam mais estragadores os bombardeios
do ar. Na penumbra do grande hall da Hauptbahnhof, maior era a muda procissão
dos soldados que des-e-embarcavam. Inge, moça vizinha, encomendou ao namorado
dúzia de prendas búlgaras. Olhávamos para os Balcãs. Mas, entre o jornal e o
rádio, crescendo os dias, todos penávamos de pensar em abril, como se suas
primeiras flores já vindo envenenadas.
Por azo, em noite menos fria, foi que me encontrei com Márion e a mãe, no
teatro. Estava fina e radiante. — “Viajo amanhã. Vou vê-lo...” — pois. — “Vai
despedir-se. A Divisão de Hans-Helmut move-se para outra parte...” — informou Frau Madsen, quase ao meu ouvido, tal a
poupar o supérfluo sofrer arranhado pelas palavras.
Apressei num cartão duas linhas para meu amigo, e entrei a revocar
assunto, dando ainda como firme infalível a suposta invulnerabilidade de
Heubel. Depois, como a peça era viva e diferente do tempo, um pouco nos
alegramos.
No Outro intervalo não me admirei de ver, distante, Annelise. Estava com
um senhor de idade, e expediu a Márion aceno e sorriso. — “Ë o pai?” — conferi.
— “Sim, o Dr. Schw. Seco, unsimpathisch?” — concedeu Márion, para sua groselha.
Nem isso, nem melhor — achei, com meu sanduíche de enguia defumada.
Observando-o, que para nosso lado não olhava: externo, espesso, sem feitio nem
aura.
Márion falava do marido, dela, do filho. Frau Madsen implorava-me, recados de Londres. Despedi-me e
caminhei, aproveitando a lua. Na estação de Dammtor, um trem sem fim
atravessava a noite, comboio militar, canhões e tropa, rodando para o Sul,
vindo da Dinamarca.
Enquanto a aguardar o alarma aéreo, eu costumava ouvir as corujas —
huhuhuuuu — um ululo; não instavam agouro, imitavam apenas o vento nos arames
da rua. Com a neve e o luar, podiam-se distinguir, empoleiradas nas árvores. E,
aurantemente, tristonhamente, tinha-se de pensar nas antigas baladas, em que
sempre vem um cavaleiro, solitário através de florestas, ou um conde palatino
ou margrave transpondo o Reno e tocando tom de luto na trompa de caça. Depois,
adormeci, sonhando a dor das separações e os rouxinóis dos lieder. E as horas, abrolhosas, que a
guerra diante de nós suspendia.
[9] Porém, nos dias, que propor ou adivinhar, se Márion mesma não disse
tudo? Tão ainda dissesse, onde ao menos ajudá-los? O destino flui, o homem
flutua. Nem mais irrogável e pesado há, que uma sombra.
— “Sabe, foi bom... Passamos a noite numa casa de camponeses, tudo tão
certo, tão pobre... Levei vinho, farnel, jantamos. De manhã, oh, decerto nem
achei triste a nossa despedida. Choramos...
— Para onde o mandaram, Marionzinha? Pode você confiar isso a um
“estrangeiro inamistoso”?
— “Que sei, que sei? — esta guerra não acaba!
— Ele voltará bravo e bom, Márion.
— “Mas, voltar, demora... Sinto que vou sofrer muitos dias, depois muitos
dias, depois muitos dias... Sofrer no sangue, sofrer no sonho... Tenho de
tremer de sofrimento...”
De remate, turvaram-se seus olhos.
— “Nisso, não quero pensar, não devia dizer a ninguém... Mas, você crê,
de verdade, em sorte e estrela?”
— Hans-Helmut, Márion, acredita.
— “Ah, pergunto: você — acredita?”
— Por que não? A fé e as montanhas...
— “Nem sei se está sendo sincero. Mas disse: Hans-Helmut e...”
— Seu crer o salva Márion...
— “Meu amigo — sem querer, você aflige-me...”
— Mas, hem...
— “Eu não devia falar, pensar... Desta vez, ele partiu acabrunhado,
profundo, sei que sem segurança. E sim... Temo que tenha medo...”
— Momentos de depressão contam pouco, ele permanece... — “Não digo. Seu
rosto era outro, você visse. Meu amigo, tem de ajudar-me, mandar-lhe cartas
animadoras, muitas... Minha mãe e eu vamos rezar, de joelhos, noites inteiras,
tudo vale! Não choro. Ah, marque o endereço: Feldpostnummer 16962 D, apenas.”
Vale, você intrépida pequena Márion, em seu apartamento da
Hahnemannstrasse e entre berço e retrato, vocês três. Ora estronda a guerra,
para lá do Danúbio: bombas massacram Belgrado. “...Prinz Eugen, der edle Ritter... “— clangoram históricas
fanfarras, alto-falando os sucessos especiais. Tratemos de Heráclito, de
Sófocles — arre ondeia a suástica sobre Himeto, Olimpo e Parnasso — detém
ninguém o correr dos carros couraçados. Vem os soldados cruzam-se com o regresso
de [10] andori|nhas e cegonhas. Já se combatia em Creta. Mas, sob canhões e
aviões, o incerto velho oceano, roxo mar dos deuses, talassava, talassava... E,
do fundo de longes batalhas, tinia o telefone, trazendo-me voz aquecida:
— “Sou eu, Márion, recebi carta, leio! Você pensa... Teve também um
cartão? Mas, diz quase nada! Fala numa cidade mediamente grande, pastores com a
gugla, camponesas de largos aventais floridos... Dá o movimento do porto, as
plantações de cucuruza... Sim, tenta dizer-nos que está na Romênia... Em
Constanza, você acha? Ah, tudo continuará bem, oh ia, ho ia, Deus a o
proteger... Deixe, não, de responder logo, obrigada. Precisamos de ajuda...”
Sim, todos nós. Los! Vorwaerts! Milhões,
de vez, penetram no Leste — rasgam a Rússia — máquinas de combate rolam
através da estepe, como formigas selvagens. Porém diante, um duro defensor
morria matando, ou se abriam só ruínas e o caos da destruição, como no segundo
versículo: a terra mal criada — despejada e monstruosa — tôhu-vabôhu.
E correm conquistas, entrou outubro, multidões vão caindo. Márion, tenho
novidade... De setembro, 18. Outro cartão, a lápis:
“... E o pior é ter de avançar,
dias inteiros, pela planície que nunca termina. Meus olhos já estão cansados.
Raramente enxergo um trigal, choupanas. Chove, e a lama é aferrada, árdua, O
russo se retrai com tal rapidez, que nunca os vemos. Quando você estiver com
Márion, diga-lhe que nela penso todo o tempo, e no menino...”
Longo o rumo dos horizontes, o barro negro da Ucraina, pássaros de bandos
revoando o incêndio de searas, e um coração de amante a contrair-se, grande
como a paisagem sármata e a desolação sagrada da ausência.
“Meu caro Hans-Helmut, — veio, faz três dias, teu cartão. Márion
pediu-me, quer cada linha de ti...” Difícil é ter e inculcar uma confiança,
quando em volta só se pensam imagens de temor e sofrimento... Márion e eu esperamos conserves tua
consciente crença. Márion...”
— Alô? Sim, é Márion...
Pode vir ver-me? Minha mãe está no Harz, meu sogro em Halstembeck... Venha, é
terrível...’’
Decerto. Só um lance poderia recortar-se assim, e esperadas palavras
expliquem tal palidez, os olhos aumentados.
— “Você veio. Obrigada...”
— Que é, Márion, carta?
— “As que o correio devolveu: o “empfaenger unerreichbar”...”
[11] — “Destinatário inalcançável”... “Decerto não localizadas as
unidades, no tumulto da ofensiva...”
— Não, a organização é implacável perfeita. Tenho só esperança:
Hans-Helmut prisioneiro... Se não, se... Mas, então tudo está perdido?
— Mas, mal, Marion...
— “Estou comportada. Chorei, toda a manhã.”
— Você não chorou bastante...
“Não, é que agora tudo se quietou. Posso pousar no sofrimento. Ah: o ódio
de Kriemhilde a Hagen... neste mundo de altos monstros!”
— Quem, bem, Márion?
— “Tem você lembrança de quando Hans-Helmut e eu estivemos com os K.!?
Deus devia antes ter-me partido três ossos!... Você sabe, o Dr. Schw., pai de
Annelise? Veja um homem crasso, persuadido, sem grão de alma. Vivendo de cor
os conceitos: glória, o que mal sei, mais-pátria e raça... os desses.
Discursam, pisando na mão de uma criança...
— E o outro, o capitão?
— “Perdoe-me, conto. Propriamente, tudo e nada. Descrevia aquele as
tantas façanhas da Wehrmacht, na França, na Bélgica. Annelise e o pai
escutavam, em momentos o Dr. Schw., às doutrinadas, com intercalações. Meu
Hans-Helmut! ... Tendo-me ao lado, se mostrava feliz, ingênuo. Ao café, o
doutor quis, não menos, suas narrações de campanha. Ah, e não lhe fiz sinal,
não lhe tapei a boca!...”
— Hans-Helmut?
— “Sorria, para mim, fumava seu charuto... “Ora, eu, da guerra, só vi uns cachorros e cavalos, mortos, felizmente...
“— foi disse. Vendo você o rolado olhar do Dr. Schwartz; daí, cerrou-se em
emburro e carranca. Seu desdém era rancor, demonstrativo. Turvou-se e gelou-se,
lá, de nada a boa-vontade de Annelise. A seguir, quase, saímos...”
— E, desde...
— Dali a meia semana, Hans-Helmut reconvocado. Causal? Ao apresentar-se,
avisaram-no: não continuava em Estado-Maior, sim na tropa. Teria urdido o quê,
o capitão K.? Pois transferia-se Hans-Helmut à companhia sob comando dele, assim.
Pensamos ainda isso a seu favor... Sabe como o capitão o viu? — “Aqui não
haverá espécie de intimidade, tibieza, epicurismos!” — repelente, vexante.
— Sem treinamento, desjeitado para o exército, [12] aguerridíssi|ma! E no momento de ofensiva, à
vanguarda... Por que você não tentou, Márion, não foi a Annelise?
— “Se fiz! Tive de com ela romper, quando também desprezou-me... Andamos
depois a outros, nulos recursos. E era o que oprimia Hans-Helmut: não o medo, o
risco, ânsia de livrar-se. Só horror enorme à maldade... Assim puderam matá-lo
— primeiro, nele, alguma coisa... Mas, não! diga, diga, então...”
Ele, Márion. Não voltará; não o veremos. Veio a exata fórmula, papel
tarjado. Hans-Helmut Heubel passou, durante um assalto, e deram-lhe ao corpo a
cruz-de-ferro. Seus traços ficarão em chão, ali onde teve de caber no grande
fenômeno, para lá do Dnieper, nas estepes de Nogai. Ninguém fale, porém, que
ele mais não existe, nem que seja inútil hipótese sua concepção do destino e da
vida. Ou que um dia não venham a ser “bem-aventurados
os mansos, porque eles herdarão a terra”.








