"O mau humor de Wotan"
Uma breve leitura interpretativa
A história se passou na Europa, no século XX, quando a Polônia foi invadida pela Alemanha, dando início à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As ações narradas e descritas de forma densa, intercalando os diálogos com maestria, aconteceram, especificamente, na cidade de Hamburgo, onde o narrador viveu suas experiências ao lado dos amigos europeus.
As personagens que fazem parte da história são: o narrador em primeira pessoa; o soldado Hans-Helmut Heubel; Márion Madsen (esposa de Hans-Helmut Heubel); Détty (filho do casal Hans e Márion;
Frau Madsen (mãe de Márion); Annelise (amiga de Márion); Capitão K.(esposo de Annelise); Dr. Schwartz (Schw) (pai de Annelise).
A crônica rosiana apresenta o percurso de vida de Hans-Helmut Heubel e Márion Madsen. Hans foi convocado por duas vezes para apresentar-se junto ao exército alemão. O narrador é amigo do casal e acompanha o sofrimento de Márion que ficou angustiada por ver o marido partir para guerra. Os tempos são difíceis e as personagens refletem a complexidade da situação que as envolve.
Partindo da análise do título da crônica "O mau humor de Wotan", pergunta-se: Quem é Wotan?
Segundo a análise feita por Carl GustavJung é o deus pagão dos germânicos, "um deus das tempestades e da efervescência que desencadeia paixões". Pode-se relacionar Wotan com o fenômeno nazista. Wotan é uma personificação de forças psíquicas, corresponde a uma natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura.
Wotan, nome alemão de Vótan-Odin — o deus mitológico, surge como símbolo da força germânica, que num capricho de "mau humor" e prepotência, instaura seu poderio sobre os homens. Nesse sentido, observamos a presença do deus Wotan analogamente ao modo como os Gregos percebiam seus deuses, isto é, como personificações das forças terrenas. Temiam os castigos que provinham dos deuses, punições que, às vezes, não afetavam apenas um único indivíduo, mas poderiam até mesmo atingir toda a comunidade.
Para manter a ordem dentro da sociedade, as regras e os ritos usados para demonstrar o respeito para com as divindades, eram rígidos e deveriam ser seguidas fielmente. Daí o vínculo estreito entre os homens e os deuses.
Em 19 de agosto de 1934, foi realizado um plebiscito em que o povo alemão aprovou a posse de Adolf Hitler para o cargo de Presidente. Segundo os dados históricos, mais de 38 milhões, votaram a favor e apenas 4 milhões contra. A partir de então, Hitler exigiu de todos os oficiais e membros das forças armadas um juramento de fidelidade para com ele próprio. Eis o juramento: "Faço perante Deus este sagrado juramento de render incondicional obediência a Adolf Hitler, o
Fuehrer do povo e do Reich alemão, supremo comandante das forças armadas...". Hitler foi deificado durante a vida. Foi Wotan, e seu mal humor consistiu em destruir tudo em nome da Paz.
Configura-se, nesse caso, o mito racista do arianismo, o qual foi revalorizado e difundido no Ocidente principalmente pela Alemanha. O homem ariano desejava ser o modelo exemplar, devendo por isso ser seguido e imitado por todos, pois, acreditava-se que dessa forma se recuperaria a pureza das raças, da força física e de um princípio onde tudo fora glorioso. Assim, Wotan é o deus da guerra alemão, encarnado naqueles propensos a acondicioná-lo.
O narrador, em primeira pessoa, inicia a história contando que Hans-Helmut Heubel relia a Cabala
O narrador, em primeira pessoa, inicia a história contando que Hans-Helmut Heubel relia a Cabala
50 ou a Bíblia e cria num destino plástico e minucioso, produzido pelo homem e
por saudade relembrou a série de causas que trouxeram a conhecê-lo. Tendo Márion Madsen como referência, foi em busca da origem, da data e recordou os tempos passados.
Márion foi quase namorada do narrador, durante um dia, à margem do rio Alster, em 1938 quando já se falava com ira na Inglaterra, por causa da Tchecoslováquia. Mesmo com o insistente galanteio do narrador, Márion hesitou em ceder às facilidades do amor, porquanto se apaixonou por Hans-Helmut Heubel. Márion dizia que iria se casar e ter filhos. Seguindo o diálogo, o narrador perguntou-lhe se os filhos seriam para obedecer ao
Fuehrer, Márion respondeu-lhe — "O Fuehrer não encontra tempo para amar... O Fuehrer sagrou-se à política...".
Márion e Hans-Helmut casaram-se antes do ataque à Polônia e viajaram para Bruxelas em lua de mel. O narrador afirma que por causa do namoro que não deu certo, veio a conhecer Hans-Helmut, o melhor amigo que descobriu na Europa. Antes de ingressar no exército alemão, Helmut trabalhava com o pai, que era proprietário de um viveiro de plantas em Halstembeck.
Quando Márion e Hans voltaram a Hamburgo, a Polônia estava vencida. O povo desejava a paz, enquanto Hitler intencionava sua paz forçosa, pairando em Berchtesgaden.
Hans-Helmut apresentou-se pela primeira vez ao exército alemão, mas não o recrutaram. Na busca de entender sobre os discursos políticos em evidência naquele momento, o narrador referiu-se a uma luta travada entre Hitler e Churchill: "Lutava-se em sinuoso, pelo direito de uma alma, nos amáveis serões em que brincavam-se adivinhações inocentes ou se jogava o
skat [jogo de cartas]". Assim, à medida que o narrador e Frau Madsen, mãe de Márion, se voltavam para Churchill, Hans e Márion inclinavam-se para Hitler.
O narrador menciona, a ira da Inglaterra por causa da Tchecoslováquia, a esse respeito pode-se acompanhar o que esclarece o historiador britânico Eric Hobsbawm:
[O] "Acordo de Munique" foi o pacto em que França e Inglaterra, representantes da Tchecoslováquia, consentiram, em nome da paz, com a transferência de partes da Tchecoslováquia para Hitler. "O acordo de Munique, despedaçou a Tchecoslováquia e transferiu grandes partes dela para Hitler, mais uma vez pacificamente". O resto foi ocupado em março de 1939. Quase imediatamente uma crise polonesa, mais uma vez resultante de mais exigências territoriais alemãs, paralisou a Europa. Disso veio a guerra
europeia de 1939-1945.
Nesta crônica, há um evento importante, que ganha o olhar subjetivo do autor. Assim, o leitor acompanha o acontecimento, como uma testemunha guiada pelo olhar do cronista que tem a pretensão de registrar de maneira pessoal o acontecimento. O cronista dá ao fato uma perspectiva que o transforma em fato singular e único.
Desse modo, a crônica "O mau humor de Wotan", coincide com um contexto histórico importante — a Segunda Guerra Mundial. Observou-se na leitura do texto que há uma crítica à desumanização na cidade grande, aos direitos civis, ao conflito de classes, ao que acontecerá com o homem após a guerra, e, em meio a toda essa situação, somos apenas números e não pessoas, pois, como resultado, temos o rompimento de valores.
A palavra "rio" é uma constante nos textos rosianos. Vale ressaltar o que Guimarães Rosa afirmou em diálogo com Günter Lorenz: "quando escreve, repete o que viveu antes".
Para o escritor mineiro,
[o]s grandes rios são profundos como a alma do homem, na superfície são vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens, porém amava mais uma coisa nos rios: sua eternidade.
O rio simboliza nossa existência com todas as peripécias de nosso destino, é um símbolo da própria vida. Nesse ambiente, o narrador cronista conheceu Márion Madsen, à beira do rio Alster. Não namoraram nem casaram, mas se tornaram grandes amigos.
O narrador relembrou que encontrava frequentemente com Hans-Helmut Heubel e várias foram as conversas entre eles. Contava-lhe sobre o Brasil, o amigo europeu escutava com interesse e seguiam a conversa entrando pelos grandes assuntos internacionais e universais.
Prosseguindo o estudo, vale mostrar o significado do nome de Hans Helmut e Márion. Hans,
traduzindo do alemão para o português, tem-se João, que, do hebraico, significa agraciado por Deus, indicando uma pessoa que possui nobreza de caráter. Helmut significa
alegria, proteção. Como palavra composta: "Hel" em alemão é um adjetivo que significa inteligente e "Mut" — esforço, coragem.
Pelo perfil do nome, pode-se compreender Hans em sua postura filosófica, como um homem intelectual que dominava a cultura letrada do século XX. Não compactuava com as ideias que levariam o homem a continuar praticando os atos mais irracionais que se pudesse imaginar. Nomeou Itália, Goethe, Teutos, Cimbros, Música. Tinha preferência pelo que aparentava jovialidade, alegria, leveza. Transpirava as delícias do mundo, o vinho, a paisagem, o amor e o dinheiro.
Não apoiava ideologicamente o exercício da força e não tinha por ela nenhuma espécie de fascinação. Era capaz de sentir, apesar do caos, sofrimento e dor provocado pela guerra, a beleza da paz como forma de tranquilidade humanizadora.
Analisando o nome de Márion
do alemão para o português, Maria. Do hebraico — amargura, mágoa, senhora. Indica serenidade, força vital e vontade de viver. Pode-se relacionar ao fato de Guimarães Rosa descrevê-la como "romântica, tonta [cautelosa/criteriosa] e femininamente prenhe [cheia] de prudência", pois experimentava aos poucos trazer o marido à linha de Heil Hitler mais enfático. Essa descrição invalida uma trajetória de engajamento nazista em Márion e aviva-lhe a prudência como critério de sobrevivência.
Hans-Helmut Heubel foi recrutado pelo exército em dezembro e partiu despreocupado.
Hans se colocara, sob poder de sua boa estrela, de seu destino: trabalhou para o Estado-Maior da Divisão, dobrava funções de chofer e dactilógrafo e ganhava maior probabilidade para sair vivo da guerra. Isso tranquilizava o narrador e Márion, porquanto consideravam o aspecto físico de Heubel: "míope e de medíocre físico, com lentes grossas." Já no escritório, agradava imaginá-lo: "por sua prezada silhueta mercantil-metafísica, acudindo à palavra "burguês"
ou seja, era um trabalho condizente com o perfil de Hans.
Passaram o inverno, o frio, os trens com soldados pela Lombardsbruecke.
Às vezes, Márion não sabia de nada. Sabia apenas que Hans-Helmut certamente estaria vivo, com saudade e saúde. Esteve na França, alojado em Chantilly. Depois da blitz [bombardeio] e do armistício [cessar fogo, trégua], dele receberam carta, demonstrando crescente amor pela França.
O narrador recomeçou a aceitar a tese do amigo europeu: "Hans-Helmut não dava, no
coração, mínimo pouso à guerra"
por isso o destino o retirou temporariamente da guerra, e assim, Hans se protegeu, mesmo estando no meio dela.
Decorreu que a 117ª Divisão retornou a Hamburgo. Hans, além dos presentes de Márion, trazia as lembranças da França no coração, requintara-se em várias coisas. Aprendera expressões francesas como:
"Les Français, vous savez... Tja, die Franzosen... Sabem beber, inventaram essa arte... Um cálice, antes do jantar, l’apéro, un verre... O conhaque, à noite: Encore une fine! Pà"asit, ma p’tite!" — tocava copo com Márion. — "Tu es pas mal... Je t’aime...
Nesse primeiro retorno, reunido com os amigos, entre alegrias e conversas, alguém perguntou: —"E a guerra?". O soldado Hans-Helmut Heubel respondeu: "— Nossa Divisão vinha na retaguarda... no caminho quase não houvera combates... — Da guerra, mesmo, avistei só uns cavalos mortos, e cachorros, felizmente...".
Para o narrador era um nenhum relato, dito de encurtar conversa. Contudo, tomara força e forma: solta, concisa. O cronista recordava o borgonha que cheirava a cravo, tinha gosto de avelãs, de saliva de mulher amada. E a rádio de Breslau
66 enviava-nos cançãozinha:
"Ach Elslein, liebes Elselein,
[Oh, pouco mais, querida Elselein]
wie gern war ich bei dir!"
[Como eu era feliz com você]
O narrador nunca o notara mais honesto. O soldado Hans-Helmut ignorou a guerra, resumiu em nada sua experiência no campo de batalha, negou esta realidade e continuou fiel à disciplina de seu pensamento, isto é, sua filosofia de vida.
O cronista narrador parece nos dizer que a guerra, de acordo com Walter Benjamin, não traduz nenhuma experiência narrável.: "No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável".
Hans-Heubel e o amigo brasileiro passaram a se encontrar com mais frequência. Em conversas amistosas, discutiam assuntos importantes. Hans argumentava de maneira justa e
desconsolada: — "Sul-americano, você deseja a vitória dos países conservadores. Mas, nós, alemães, mesmo padecendo o Nazismo, como podemos querer a derrota? Que fazer?"
Compreende-se que Heubel não disse que concordava com os objetivos nazistas, apenas afirmou que, como alemão, não gostaria de perder a guerra.
O cronista narrador buscava contra Hitler um "
mane-téquel-fares, a catástrofe final dos raivados devastadores"71. Todavia calava-se, com o amigo a citar Goebbels, que induzia a Alemanha, com inteligência miasmática e inumana, com que "Logge, o deus do fogo, instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibelungen".
É interessante notar que, em entrevista com Guimarães Rosa, Lorenz diz que "todos os assuntos enumerados tiveram grande importância na vida do escritor mineiro: a diplomacia, os cavalos, as religiões, os idiomas." No entanto, Guimarães Rosa, em resposta, pede que "não esqueça seus cavalos e suas vacas, pois quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros.".
Quando alguém lhe narrava algum acontecimento trágico, Guimarães Rosa apenas dizia: "Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo!".
Ao contrário, Hans-Helmut Heubel para encurtar qualquer conversa sobre o horror da guerra, utiliza a imagem dos cavalos como estratégia para não narrar a tristeza do mundo já que não descreve pessoas mortas, famintas, doentes, desesperadas, mutiladas, sofrendo a maldade e o horror da guerra.
O narrador referiu-se a expressão bíblica encontrada no "Livro de Daniel", capítulo 5, versos 25 a 28. Para isso, é bom lembrar do que trata a história bíblica:
Havendo Belsazar provado o vinho, mandou trazer os vasos de ouro e de prata que Nabucodonosor, seu pai, tinha tirado do templo que estava em Jerusalém [...] para que bebessem por eles o rei e os seus grandes, as suas mulheres e concubinas.
Em meio ao banquete oferecido pelo rei Belsazar, um dedo humano aparece escrevendo na parede do Palácio advertências que o deixaram assustado, pois não compreendia o significado de tais palavras. Assim,
ordenou o rei, com força, que se introduzissem os astrólogos, os caldeus e os adivinhadores: e falou o rei e disse aos sábios de Babilônia.. Qualquer que ler esta escritura, e me declarar a sua interpretação, será vestido de púrpura, e trará uma cadeia de ouro ao pescoço, e será, no reino, o terceiro dominador.
Não havendo quem interpretasse o que estava escrito na parede, alguém lembrou e chamou Daniel, o profeta de Deus, que recusando a tentativa de suborno do rei, interpretou o significado das frases escritas na parede do palácio. Essa foi a última noite dos babilônios e do rei Belsazar. Eles encheram a taça de sua iniquidade.
O escritor Guimarães Rosa usou três palavras como raízes de verbos aramaicos.
Mene/Mane (palavras variantes) que significam "contado". Tequel/Téquel — "pesado". Parsin/Ufarsin/Peres/Fares (palavras variantes) cujo significado é "dividir". Peres é a forma singular de Parsin.
Inscreve-se a expressão bíblica no trecho da fala do sul-americano quando em conversa amistosa com Hans-Helmut.
Mene: "Contou Deus o teu reino e deu cabo dele."
Tequel: "Pesado foste na balança e achado em falta."
Peres: "Dividido foi o teu reino e dado aos medos e persas."
Porém, à busca verbal de uma punição fulminante para o lider nazista segue-se um calar adversativo de evidente frustração por parte do narrador.
Por meio da leitura da crônica "O mau humor de Wotan", percebeu-se que a história se repete em relação ao domínio entre as nações. Pode-se comparar Hitler e Belsazar, entre outros aspectos, no sentido de como se sentiam, por causa da grandeza que tomavam para si, pois todos os povos, nações e línguas tremiam e temiam diante deles: a quem queriam
matavam, davam a vida, engrandeciam, e abatiam. Mal humorados, cometiam as piores atrocidades, configuram-se como Wotan, o deus da guerra, da insatisfação, do ódio àqueles que se opusessem ao seu domínio.
O tempo passa. Após amistosa conversa, sem avisos, Márion diz que aceitou o convite para jantar na casa de Annelise. Lá, estariam o capitão K., marido de Annelise, Dr. Schwartz, pai de Annelise, médico retirado, que gostava de cursar conferências sobre quaisquer temas. O Dr. Schw. Seco,
unsimpathisch [não simpático], não causou boa impressão ao narrador.
— "Ah, se ao menos até o Natal acabasse esta guerra!". Clamava Márion, longe das presenças da Gestapo, preparando as roupinhas do bebê.
"Notem: antes do Natal, a mão do
fatum volveu a Heubel, num meio gesto: foi ele chamado de novo às filas, para o acampamento de Münster, onde veteranos infantes voltaram a aprender, de a a z, dia sobre dia, as partes de todo combater". Nesse período, Hans-Helmut veio a Hamburgo para conhecer o filho Détty.
O narrador encontrou-se, por acaso com Márion e a mãe, no teatro.
Frau [senhora] Madsen informou que a Divisão de Hans-Helmut moveu-se para outra parte. Assim, o narrador apressou num cartão duas linhas para seu amigo. Depois, como a peça teatral era viva e diferente do tempo, um pouco se alegraram. Márion falava do marido, dela, do filho.
Os dias se passavam e o narrador não sabia o que fazer para ajudá-los já que Márion não disse tudo a ele. Porém, insistiu em perguntar: — Para onde o mandaram, Marionzinha? Pode você confiar isso a um "estrangeiro inamistoso"? Ela responde: — "Que sei, que sei? — esta guerra não acaba!".
Então, Márion decide contar para o amigo, o que ele não pôde compreender durante o jantar na casa dos K., pois a conversa, segundo o narrador, ficou longe de seus ouvidos.
— Tem você lembrança de quando Hans-Helmut e eu estivemos com os K.? Você sabe, o Dr. Schw., pai de Annelise? Veja um homem crasso, persuadido, sem grão de alma. Vivendo de cor os conceitos: glória, o que mal sei, mais-pátria e raça... os desses. Discursam, pisando na mão de uma criança...
Entretanto, Hans-Helmut tendo a esposa ao lado, se mostrava feliz, ingênuo. Durante o café, o Dr. Schw pediu que Hans apresentasse suas narrações de campanha. O soldado Hans- 36
Helmut sorria para Márion, fumava seu charuto e respondia: — "Ora, eu, da guerra, só vi uns cachorros e cavalos, mortos, felizmente...".
O Dr. Schwartz ficou insatisfeito com a resposta de Helmut. Logo Annelise tornou-se indiferente, transformou-se a boa vontade.
Daí a meia semana, "Hans-Helmut foi reconvocado. Causal?".
Ao apresentar-se, avisaram-no que não continuaria em Estado-Maior e sim na tropa. Qual teria sido o plano do capitão K.? Transferiram Hans-Helmut à companhia sob comando dele. Todavia, Márion Madsen decepcionou-se como a atitude do capitão K. quando disse que entre ele e Hans "não haveria espécie de intimidade, tibieza, epicurismos".
Para Helmut, a princípio, pareceu bom ficar sob as ordens de um amigo. Mas o Capitão K. zangou-se com o espírito livre de Hans, que como se seguisse a doutrina do Epicuro,
buscasse garantir sobre tudo a "tranquilidade de espírito", o que, equivale dizer: relegar os ideais nazistas para um segundo plano. Nesse sentido o Capitão K. "executou seu trabalho" como técnico perfeito ante a ameaça do inimigo.
Márion Heubel pediu ajuda a Annelise, esposa do Capitão K., mas teve de romper a amizade, porque Annelise a desprezou. Buscaram outros recursos, mas tudo em vão. O que oprimia Hans-Helmut não era o medo, o risco ou a ânsia de livrar-se, mas o horror enorme à maldade. Dessa maneira, "puderam matá-lo, primeiro, nele, alguma coisa".
Conforme acreditava Márion, "Mataram nele a plasticidade de não ver o horror." Percebe-se esta morte lenta em suas últimas cartas. Finalmente, a guerra o assombrava.
O narrador tenta confortar a amiga dizendo que o marido voltará bravo e bom, porém Márion afirma: — "Mas, voltar, demora... Sinto que vou sofrer muitos dias, depois muitos dias, depois muitos dias... Sofrer no sangue, sofrer no sonho... Tenho de tremer de sofrimento...".
Correm conquistas, entrou outubro, multidões vão caindo. O narrador recebeu outro cartão do amigo Heubel, que dizia:
E o pior é ter de avançar, dias inteiros, pela planície que nunca termina. Meus olhos já estão cansados. Raramente enxergo um trigal, choupanas. Chove, e a lama é aferrada, árdua. O russo se retrai com tal rapidez, que nunca os vemos. Quando você estiver com Márion, diga-lhe que nela penso todo o tempo, e no menino.
Helmut descreveu uma imagem da guerra, mas não se referiu a pessoas mortas. O diplomata respondeu-lhe: "Márion e eu esperamos conserves tua consciente crença".
Logo as cartas foram devolvidas pelo correio, destinatário inalcançável. Márion se desesperou e chamou o amigo que com pesar anunciou a triste notícia:
Ele, Márion. Não voltará; não o veremos. Veio a exata fórmula, papel tarjado. Hans-Helmut Heubel passou, durante um assalto, e deram-lhe ao corpo a cruz-de-ferro. Seus traços ficarão em chão, ali onde teve de caber no grande fenômeno, para lá do Dnieper, nas estepes de Nogai. Ninguém fale, porém, que ele mais não existe, nem que seja inútil hipótese sua concepção do destino e da vida. Ou que um dia não venham a ser "bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra"
Ao longo da história da humanidade, o século XX talvez tenha sido aquele em que os homens conseguiram criar e ampliar, com incomparável habilidade e inteligência, a capacidade de destruição. Helmut, o menos belicoso dos homens, era manso e tinha o direito de viver segundo sua filosofia de vida com paz e tranquilidade da alma, vivendo em repouso e sem guerra.
Para o historiador britânico Eric Hobsbawm,
a catástrofe humana desencadeada pela Segunda Guerra Mundial é quase certamente a maior da história humana. O aspecto não menos importante dessa catástofre é que a humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matança, a tortura e o exílio em massa se tornaram experiências do dia a dia que não mais notamos.
Guimarães Rosa trouxe à tona conflitos de classe, descortinou que a humanidade sobreviveu. Contudo, o grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas da guerra mundial, quando suas colunas ruíram e o diplomata brasileiro enfrentou uma cultura intolerante com relação ao outro.
A crônica é concluída com referência a outra citação bíblica escrita no livro de Mateus, capítulo cinco, verso cinco — "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra". O narrador chegou a acreditar que Hans ficaria livre dos campos de batalha. Mas a amargura, a miséria, o caos em que o mundo se encontrava o deixou indignado ao relembrar toda a experiência que passou em Hamburgo.



