quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CRÔNICA "O MAU HUMOR DE WOTAN" NA ÍNTEGRA



ROSA, João Guimarães. Ave, Palavra; nota introdutória de Paulo Rónai. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. 274 p.

[3] O MAU HUMOR DE WOTAN


Hans-Helmut Heubel relia a Cabala ou a Bíblia e cria num destino plástico e minucioso, retocável pelo homem. Por sau­dade, com isso me ponho em remontar à causa ou série de causas que me trouxeram a conhecê-lo. E retorno a Márion.
Márion Madsen, gentil afino de origens — alemã, dina­marquesa e belga — foi rapidamente quase minha namorada, durante um dia, à beira do Alster, em 1938. Maduros os mo­rangos, tendo flor os castanheiros, já se falava com ira na In­glaterra, por causa da Tchecoslováquia. Mas os jovens casais remavam seus barcos para debaixo dos salgueiros-chorões, pa­ravam por lá escondido tempo, só saíam para se encostar no cais da Uhlenhorster-Faerhaus, onde garçons de blusa branca serviam-lhes sucos de maçãs e sorvetes, enquanto a orquestra, ao livre, solvia Wagner e Strauss. Mesmo assim, Márion, loura entre canário e giesta e mais num tailleur de azul só visto em asas de borboletas, hesitava em ceder primaverazmente às gra­tidões do amor.
— “Vou-me casar e ter filhos...” — prometia.
— Para obedecer ao Fuehrer, Márionchen?
Tão graciosa que fosse, os olhos pegavam seriedade gris demais. Levou minuto para responder, e dava:
— “O Fuehrer não encontra tempo para amar... O Fueh­rer sagrou-se à política...”
Não se podia insistir. Márion furtava a mirada, e tornou a mencionar casamento. Casou-se, dali a mais de ano, quinze dias talvez antes do ataque à Polônia. Passou a ser Frau Heubel, mulher de Hans-Helmut. Do modo, por falho namoro e pela forte camaradagem seguinte, vim a conhecer um meu ami­go, que a Europa me descobriu.
Conseguiram eles do Finanzamt algumas divisas, e foram para lua-de-mel em Bruxelas. Estavam em paz por lá, durante Mlawa, durante Kutno e a destruição de Varsóvia. E nisso houve qualquer lógica recerta, porquanto Hans-Helmut formara-se o menos belicoso dos homens, nada marcial, bem mesmo nem germânico, a não ser pelo estimar a ordem em trabalho contínuo, [4] mais uma profundidade nebulosa no indagar a vida e o pausado método de existir.
Nos gostos, porém, tocavam-no subtilidades de latino: de preferência ao sólido, escolhia o leve e lépido, o bonito; acon­selhava Márion a maquilar-se; e, sempre que vez, como tra­dição, baixava à Itália amada de Goethe, de Teutos e Cimbros, para comer melhor e tentar esportes de inverno, entre as mais formosas mulheres do mundo, em Cortina d’Ampezzo.
Ao voltarem a Hamburgo, a Polônia estava finda. Falava-se na paz, o povo sonhava paz, e Hitler, pairando em Berchtesgaden, intuicionava sua paz forçosa.
Hans-Helmut apresentou-se, mas não o recrutaram: aguardasse convocação. Em feito, a sorte com ele trabalhava; e que a merecia, a mais de entreter a certeza íntima e preconce­bido otimismo — meios que põem em favor da gente o exato destino correto.
Por todo o outono andávamos, e velhas eram nossas con­versas. Meu amigo tinha sensato interesse por tudo o que do Brasil, e eu votava-o a um dia para cá migrar, dono de qual­quer fábrica, de bebidas, por exemplo. Então ia-se a outra cer­veja e entrando pelos grandes universais assuntos. Fora uma judia a derradeira amiguinha de Heubel, que, e pelo dito, não simpatizaria com o Partido. Mas Márion, romântica, tonta e femininamente prenhe de prudência, experimentava aos pou­cos trazê-lo à linha de heil Hitler mais enfático. Minha aliada era a mãe, Frau Madsen, que me fazia repetir, seguidos, cada discurso de Churchill. Lutava-se, em sinuoso, pelo direito de uma alma, nos amáveis serões em que brincavam-se adivi­nhações inocentes ou se jogava o skat.
Por contra, Hans-Helmut depressa converteu Márion à sua essencial filosofia. De maneira, ela menos se acabrunhou, quando o chamaram enfim à farda, em dezembro.
— “Nada lhe acontecerá...” — recitava, sacudindo a amarela cabecinha, sorrindo assim e parda-azulmente nos olhos. E foi despreocupado que Hans-Helmut partiu, envergava o feldgrau, plantado nas grandes botas de campanha; só com sombra de prévia saudade, decerto.
O inverno de 1939-1940 foi muito. Passeando em cima do Alster gelado, Márion contava-nos do marido. Não era a vida cômoda, no acampamento de Münster, onde metade da tropa adoecia de pneumonia ou gripe, enquanto o resto se adestrava sem cessa, suando a se arrastar na neve, horas, a 30º sob zero, naquela charneca de Lueneburg.
[5] Mas Hans-Helmut se colocara, por poder de sua estrela: distribuído ao Estado-Maior da Divisão, dobrava funções de chofer e dactilógrafo. Escapara então ao rigor do drill prussia­no, e ganhava número de probabilidades para sair vivo do comprido da guerra, chanças e estrapaças.
Isso, aliviava-nos, porquanto Heubel míope e de medíocre físico, com lentes grossas. No escritório, sim, agradava imaginá-lo, sua prezada silhueta mercantil-metafísica, acudin­do à palavra “burguês”, mais vivo sublimada, no que seu sen­tido tenha de menos obtuso.
Mas, passaram o frio, o inverno, pela Lombardsbruecke trens com soldados, os dias de Oslo, Narvik e Lillehammer. Vezes, mesmo Márion sabia de nada. Só que Hans-Helmut vi­vo, com saudade e saúde. Não esteve na Noruega. Esteve na França. Depois de blitz e armistício, dele tivemos carta.
Achava-se aboletado, cerca de Chantilly, em castelo, onde havia um parque ameno e infindáveis vinhos, adega soberana. Eram cartas vagarosas, graças, inclusive, a crescente amor pela França. Recomecei a aceitar sua tese: Hans-Helmut não dava, no coração, mínimo pouso à guerra, e pois o destino fora da guerra o suspendia.
Quem irá, porém, esmiuçar o grão primigerador, no âma­go de montanha, ou o nó causal num recruzar-se de fios, dos milhões desses que fiam as Nomas?
Porque todo minuto poderia ser uma origem.
Por caso, talvez, aquele em que Márion conheceu Anne­lise. Difícil, mais, todavia entender: por que teve Márion de vir a conhecer Annelise? E entanto tudo se veja começado descui­dada ou deixadamente, em Heubel mesmo — para aceitarmos sua crença pia.
Annelise, tão amena quanto Márion, era mulher do Capi­tão K., também hamburguês, também na França, em Chantilly. As duas se fizeram amigas; cartas vindo e indo, Hans-­Helmut e o Capitão inteiraram-se amigos, talmente. Eram, bem, da mesma idade, as esposas tinham achado a fraterni­zação, e mesmo não seria isso incomum, nos exércitos do II.º e 1/2 Reich. Mas, pois, decorreu que a 117ª Divisão retornou a Hamburgo, para casernar, enquanto nós, nós outros, chorá­vamos ainda a França, e a Luftwaffe quebrava o seu martelo na bigorna inglesa.
Hans-Helmut voltou corado, mais gordo. Sentava-lhe ra­zoável o uniforme, realçando o ar de bonomia clara, que fazia a gente gostar mais dele. Trouxera, além dos presentes de Márion, um corte de pano para smoking e dúzia de garrafas do bom [6] borgo|nha. Trazia também a França. Sim, requintara-se, em várias coisas.
“Les Français, vous savez... Tja, die Franzosen... Sa­bem beber, inventaram essa arte... Um cálice, antes do jantar, l’apéro, un verre... O conhaque, à noite: Encore une fine! Pà”a­sit, ma p’tite!” — tocava copo com Márion. — “Tu es pas mal... Je t’aime...”
Contava que, em Paris, duas mulheres, sorte de elegantes, o tinham convidado, juntas, para hora íntima.
“Doch!... Acendi um cigarro, nongschalaantmantt... E respondi: — Oon leh vverrá... Oh, douce France!”
Márion sorria, segura de sua estricta lealdade nórdica. Os dois se namoravam, quais e quando. Ai alguém perguntou: —“E a guerra?”
Heubel endireitou o busto, alisou devagar a túnica, sério desesperadamente.
Gut... nossa Divisão vinha na retaguarda... no cami­nho quase não houvera combates... So war’s...”
De fim, pimpou na ponta do nariz um dedo, por engraça­do trejeito remexendo os lábios.
“Da guerra, vi apenas cavalos e cachorros mortos, fe­lizmente...”
Nunca o notara mais honesto, desvincado. Resumindo em nada sua experiência guerreira, negava a realidade da guerra, fiel ao sentir certo e à disciplina do pensamento. Tornou ao copo, beijou a mão de Márion, e repetiu aquilo de corpos ani­mais, num tom medido, do modo com que falam os lentos hanseatas.
— “Da guerra, mesmo, avistei só uns cavalos mortos, e cachorros, felizmente...”
Era um nenhum relato, dito de acurtar conversa. Contu­do, tomara força e forma: solta, concisa, fácil para guardada; e ficara assim coisa: que nem uma moedinha de dez pfennig, um palito, um baraço. Nenhum de nós porém pensava nisso. Recordo, o borgonha cheirava a cravo, tinha gosto de avelãs, de saliva de mulher amada. E a rádio de Breslau enviava-nos cançãozinha:

... “Ach Elslein, liebes Elselein,
wie gern war ich bei dir!”

Hans-Helmut trabalhava com o pai, proprietário em Halstembeck de um viveiro de plantas, e, como interessava aos alemães o reflorestamento, não lhe foi de muito obter um u.k. — licença de desmobilização temporária. Passamos a nos en­contrar com [7] mais freqüência. Amistosos, discutimos. Ele abria argumentação justa e desconsolada, lógica tranqüila: — “Sul-americano, você deseja a vitória dos países con­servadores. Mas, nós, alemães, mesmo padecendo o Nazismo, como podemos querer a derrota? Que fazer?”
Eu buscava contra Hitler um mane-téquel-fares, a catás­trofe final dos raivados devastadores. Mas, a seguir, calava-me, com o meu amigo a citar Goebbels, o sinistro e astuto, que induzia a Alemanha, de fora a fundo, com a mesma inteligên­cia miasmática, solta, inumana, com que Logge, o deus do fo­go, instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibe­lungen.
Também findara o borgonha, bebia-se do mosela. Zu­niam nas noites os aviões da RAF, entre sustos e estampidos. Desfolhavam-se as tílias da Glockengiesserwall, os olmos da rua Heimhuder. E vinha-se para fim do outono, com tristeza e o escuro, como se descendo por subterrâneo.
E ora porém, pois, conforme, os maiores dias vão assim no comum, sem avisações; a não ser quando tudo pode ser conferido, depois. Márion disse:
— “Jantamos amanhã com Annelise e o marido.”
“Ach so,” — entredisse Heubel — “vamos à casa do Capitão K., meu amigo.”
Soube, mais, que com o casal K. morava o Dr. Schw., so­gro, médico retirado, que gostava de cursar conferências sobre quaisquer temas. Daí, aí, gravei ainda que Márion e a capitãzi­nha continuavam a avistar-se, nessa pausa da guerra. E, outro-tudo que a tanto se prendesse, foi falado longe dos meus ouvidos, ocupados, ali e aqui, a apanhar outras conversas.
— “Ah, se ao menos até o Natal acabasse esta guerra!” — clamava-se, longe das presenças da Gestapo. — “Ah” —rogava Márion — “esta guerra acabasse!”
Mas dizia e esplendia, ostensiva, preparando as roupinhas do bebê.
Notem:  antes do Natal, a mão do fatum volveu a Heubel, num meio gesto: foi ele chamado de novo às filas, para o acampamento de Münster, onde veteranos infantes voltaram a aprender, de a a z, dia sobre dia, as partes de todo combater.
— “Nosso Hans-Helmut continua guiando automóveis e dactilografando?”
— “Oh, sim, sim, sim...” — Márion se bendizia, olhos de ver anjos no ar, o ventre manso e tanto se arredondando.
Pelo inverno, fora o regelo e frimas, tudo era o ruim ven­to de leste e aquela rotina da guerra. Vi Márion menos vezes. [8] Acon|teceu, raro também, que Hans-Helmut viesse a Hambur­go, por breves licenças. Delas, uma para conhecer o filho — Détty, preclaro, ridor, tão gorduchinho — chegado, como via geral os meninos, guardando ainda o exser de algum país de ideidade.
Seguindo assim, seja, semanas, roncavam mais estragado­res os bombardeios do ar. Na penumbra do grande hall da Hauptbahnhof, maior era a muda procissão dos soldados que des-e-embarcavam. Inge, moça vizinha, encomendou ao na­morado dúzia de prendas búlgaras. Olhávamos para os Balcãs. Mas, entre o jornal e o rádio, crescendo os dias, todos penávamos de pensar em abril, como se suas primeiras flores já vindo envenenadas.
Por azo, em noite menos fria, foi que me encontrei com Márion e a mãe, no teatro. Estava fina e radiante. — “Viajo amanhã. Vou vê-lo...” — pois. — “Vai despedir-se. A Divisão de Hans-Helmut move-se para outra parte...” — informou Frau Madsen, quase ao meu ouvido, tal a poupar o supérfluo sofrer arranhado pelas palavras.
Apressei num cartão duas linhas para meu amigo, e entrei a revocar assunto, dando ainda como firme infalível a suposta invulnerabilidade de Heubel. Depois, como a peça era viva e diferente do tempo, um pouco nos alegramos.
No Outro intervalo não me admirei de ver, distante, Anne­lise. Estava com um senhor de idade, e expediu a Márion aceno e sorriso. — “Ë o pai?” — conferi. — “Sim, o Dr. Schw. Se­co, unsimpathisch? — concedeu Márion, para sua groselha. Nem isso, nem melhor — achei, com meu sanduíche de enguia defumada. Observando-o, que para nosso lado não olhava: ex­terno, espesso, sem feitio nem aura.
Márion falava do marido, dela, do filho. Frau Madsen implorava-me, recados de Londres. Despedi-me e caminhei, aproveitando a lua. Na estação de Dammtor, um trem sem fim atravessava a noite, comboio militar, canhões e tropa, rodan­do para o Sul, vindo da Dinamarca.
Enquanto a aguardar o alarma aéreo, eu costumava ouvir as corujas — huhuhuuuu — um ululo; não instavam agouro, imitavam apenas o vento nos arames da rua. Com a neve e o luar, podiam-se distinguir, empoleiradas nas árvores. E, au­rantemente, tristonhamente, tinha-se de pensar nas antigas ba­ladas, em que sempre vem um cavaleiro, solitário através de florestas, ou um conde palatino ou margrave transpondo o Re­no e tocando tom de luto na trompa de caça. Depois, adorme­ci, sonhando a dor das separações e os rouxinóis dos lieder. E as horas, abrolhosas, que a guerra diante de nós suspendia.
[9] Porém, nos dias, que propor ou adivinhar, se Márion mesma não disse tudo? Tão ainda dissesse, onde ao menos ajudá-los? O destino flui, o homem flutua. Nem mais irrogável e pesado há, que uma sombra.
— “Sabe, foi bom... Passamos a noite numa casa de cam­poneses, tudo tão certo, tão pobre... Levei vinho, farnel, jan­tamos. De manhã, oh, decerto nem achei triste a nossa despe­dida. Choramos...
— Para onde o mandaram, Marionzinha? Pode você con­fiar isso a um “estrangeiro inamistoso”?
— “Que sei, que sei? — esta guerra não acaba!
— Ele voltará bravo e bom, Márion.
— “Mas, voltar, demora... Sinto que vou sofrer muitos dias, depois muitos dias, depois muitos dias... Sofrer no san­gue, sofrer no sonho... Tenho de tremer de sofrimento...”
De remate, turvaram-se seus olhos.
— “Nisso, não quero pensar, não devia dizer a nin­guém... Mas, você crê, de verdade, em sorte e estrela?”
— Hans-Helmut, Márion, acredita.
— “Ah, pergunto: você — acredita?”
— Por que não? A fé e as montanhas...
— “Nem sei se está sendo sincero. Mas disse: Hans­-Helmut e...”
— Seu crer o salva Márion...
— “Meu amigo — sem querer, você aflige-me...”
— Mas, hem...
— “Eu não devia falar, pensar... Desta vez, ele partiu acabrunhado, profundo, sei que sem segurança. E sim... Temo que tenha medo...”
— Momentos de depressão contam pouco, ele permane­ce... — “Não digo. Seu rosto era outro, você visse. Meu ami­go, tem de ajudar-me, mandar-lhe cartas animadoras, mui­tas... Minha mãe e eu vamos rezar, de joelhos, noites inteiras, tudo vale! Não choro. Ah, marque o endereço: Feldpostnum­mer 16962 D, apenas.”
Vale, você intrépida pequena Márion, em seu apartamen­to da Hahnemannstrasse e entre berço e retrato, vocês três. Ora estronda a guerra, para lá do Danúbio: bombas massa­cram Belgrado. “...Prinz Eugen, der edle Ritter... “— clango­ram históricas fanfarras, alto-falando os sucessos especiais. Tratemos de Heráclito, de Sófocles — arre ondeia a suástica sobre Himeto, Olimpo e Parnasso — detém ninguém o correr dos carros couraçados. Vem os soldados cruzam-se com o re­gresso de [10] andori|nhas e cegonhas. Já se combatia em Creta. Mas, sob canhões e aviões, o incerto velho oceano, roxo mar dos deuses, talassava, talassava... E, do fundo de longes bata­lhas, tinia o telefone, trazendo-me voz aquecida:
— “Sou eu, Márion, recebi carta, leio! Você pensa... Teve também um cartão? Mas, diz quase nada! Fala numa cidade mediamente grande, pastores com a gugla, camponesas de lar­gos aventais floridos... Dá o movimento do porto, as plan­tações de cucuruza... Sim, tenta dizer-nos que está na Romê­nia... Em Constanza, você acha? Ah, tudo continuará bem, oh ia, ho ia, Deus a o proteger... Deixe, não, de responder logo, obrigada. Precisamos de ajuda...”
Sim, todos nós. Los! Vorwaerts! Milhões, de vez, pene­tram no Leste — rasgam a Rússia — máquinas de combate ro­lam através da estepe, como formigas selvagens. Porém dian­te, um duro defensor morria matando, ou se abriam só ruínas e o caos da destruição, como no segundo versículo: a terra mal criada — despejada e monstruosa — tôhu-vabôhu.
E correm conquistas, entrou outubro, multidões vão cain­do. Márion, tenho novidade... De setembro, 18. Outro cartão, a lápis:

“... E o pior é ter de avançar, dias inteiros, pela planície que nunca termina. Meus olhos já estão cansados. Raramente enxergo um trigal, choupanas. Chove, e a lama é aferrada, árdua, O russo se retrai com tal rapidez, que nunca os vemos. Quando você estiver com Márion, diga-lhe que nela penso todo o tempo, e no menino...”

Longo o rumo dos horizontes, o barro negro da Ucraina, pássaros de bandos revoando o incêndio de searas, e um co­ração de amante a contrair-se, grande como a paisagem sár­mata e a desolação sagrada da ausência.

“Meu caro Hans-Helmut, veio, faz três dias, teu car­tão. Márion pediu-me, quer cada linha de ti...” Difícil é ter e inculcar uma confiança, quando em volta só se pensam ima­gens de temor e sofrimento... Márion e eu esperamos conserves tua consciente crença. Márion...”
— Alô? Sim, é Márion... Pode vir ver-me? Minha mãe está no Harz, meu sogro em Halstembeck... Venha, é ter­rível...’’
Decerto. Só um lance poderia recortar-se assim, e espera­das palavras expliquem tal palidez, os olhos aumentados.
— “Você veio. Obrigada...”
— Que é, Márion, carta?
— “As que o correio devolveu: o empfaenger unerreich­bar”...”
[11] — “Destinatário inalcançável”... “Decerto não localiza­das as unidades, no tumulto da ofensiva...”
— Não, a organização é implacável perfeita. Tenho só es­perança: Hans-Helmut prisioneiro... Se não, se... Mas, então tudo está perdido?
— Mas, mal, Marion...
— “Estou comportada. Chorei, toda a manhã.”
— Você não chorou bastante...
“Não, é que agora tudo se quietou. Posso pousar no sofrimento. Ah: o ódio de Kriemhilde a Hagen... neste mundo de altos monstros!”
— Quem, bem, Márion?
— “Tem você lembrança de quando Hans-Helmut e eu estivemos com os K.!? Deus devia antes ter-me partido três os­sos!... Você sabe, o Dr. Schw., pai de Annelise? Veja um ho­mem crasso, persuadido, sem grão de alma. Vivendo de cor os conceitos: glória, o que mal sei, mais-pátria e raça... os desses. Discursam, pisando na mão de uma criança...
— E o outro, o capitão?
— “Perdoe-me, conto. Propriamente, tudo e nada. Des­crevia aquele as tantas façanhas da Wehrmacht, na França, na Bélgica. Annelise e o pai escutavam, em momentos o Dr. Schw., às doutrinadas, com intercalações. Meu Hans-­Helmut! ... Tendo-me ao lado, se mostrava feliz, ingênuo. Ao café, o doutor quis, não menos, suas narrações de campanha. Ah, e não lhe fiz sinal, não lhe tapei a boca!...”
— Hans-Helmut?
— “Sorria, para mim, fumava seu charuto... “Ora, eu, da guerra, só vi uns cachorros e cavalos, mortos, felizmen­te... “— foi disse. Vendo você o rolado olhar do Dr. Schwartz; daí, cerrou-se em emburro e carranca. Seu desdém era rancor, demonstrativo. Turvou-se e gelou-se, lá, de nada a boa-vontade de Annelise. A seguir, quase, saímos...”
— E, desde...
— Dali a meia semana, Hans-Helmut reconvocado. Cau­sal? Ao apresentar-se, avisaram-no: não continuava em Esta­do-Maior, sim na tropa. Teria urdido o quê, o capitão K.? Pois transferia-se Hans-Helmut à companhia sob comando dele, as­sim. Pensamos ainda isso a seu favor... Sabe como o capitão o viu? — “Aqui não haverá espécie de intimidade, tibieza, epicu­rismos!” — repelente, vexante.
— Sem treinamento, desjeitado para o exército, [12] aguer­ridíssi|ma! E no momento de ofensiva, à vanguarda... Por que você não tentou, Márion, não foi a Annelise?
— “Se fiz! Tive de com ela romper, quando também desprezou-me... Andamos depois a outros, nulos recursos. E era o que oprimia Hans-Helmut: não o medo, o risco, ânsia de livrar-se. Só horror enorme à maldade... Assim puderam matá-lo — primeiro, nele, alguma coisa... Mas, não! diga, di­ga, então...”
Ele, Márion. Não voltará; não o veremos. Veio a exata fórmula, papel tarjado. Hans-Helmut Heubel passou, durante um assalto, e deram-lhe ao corpo a cruz-de-ferro. Seus traços ficarão em chão, ali onde teve de caber no grande fenômeno, para lá do Dnieper, nas estepes de Nogai. Ninguém fale, porém, que ele mais não existe, nem que seja inútil hipótese sua concepção do destino e da vida. Ou que um dia não ve­nham a ser “bem-aventurados os mansos, porque eles herda­rão a terra”.

CATÁSTROFE HUMANA NA CRÔNICA DE GUERRA"O MAU HUMOR DE WOTAN"

Alemanha bombardeada
Ao longo da história da humanidade, o século XX talvez tenha sido aquele em que os homens conseguiram criar e ampliar, com incomparável habilidade e inteligência, a capacidade de destruição. Para o historiador britânico Eric Hobsbawm, a catástrofe humana desencadeada pela Segunda Guerra Mundial é quase certamente a maior da história humana. O aspecto não menos importante dessa catástrofe é que a humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matança, a tortura e o exílio em massa se tornaram experiências do dia a dia que não mais notamos. [Era dos Extremos, p. 58] Na crônica "O mau humor de Wotan" Guimarães Rosa descortinou que a humanidade sobreviveu. Contudo, o grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas da guerra mundial, quando suas colunas ruíram e o diplomata brasileiro enfrentou uma cultura intolerante com  relação ao outro. 
Na crônica "O mau humor de Wotan", o cronista Guimarães Rosa narra o horror da guerra. Escreveu sua crônica por meio de fatos reais e expôs seu intenso interesse nos assuntos diários que se passaram na Alemanha.

TRAVESSIA POR VEREDAS AQUÁTICAS


João Guimarães Rosa ingressa na carreira diplomática em 1934. O consulado de Hamburgo foi o primeiro posto internacional do escritor brasileiro. Assim, o  futuro autor de Grande Sertão: veredas fez uma travessia aquática pelas veredas do Oceano Atlântico, chegando em Hamburgo no ano da anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938. Entre 1938 e 1942, João Guimarães Rosa registrou as impressões de um diplomata brasileiro na Alemanha nazista. Juntamente com sua futura esposa, D. Aracy Moebius de Carvalho, à época funcionária do consulado brasileiro, em Hambugo, ajudou dezenas de judeus a fugirem da perseguição nazista.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

NOMES HISTÓRICOS NA CRÔNICA "O MAU HUMOR DE WOTAN"

Fuehrer - Lider Nazista Adolf Hitler
   
Dr. Goebbels - Ministro da propaganda de Adolf  Hitler na Alemanha Nazista
Wilhelm Richard Wagner - compositor, maestro e poeta alemão. Escreveu a ópera O Anel do Nibelungo.
Winston Leonard Spencer-Churchill - primeiro Ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial
Richarde Georg Strauss - compositor e maestro alemão. Strauss foi bastante influenciado por Richard Wagner
Johann Wolfgang Von Goethe -  escritor alemão

WOTAN X HITLER


Wotan, nome alemão de Vótan-Odin - o deus mitológico, surge como símbolo da força germânica, que num capricho de "mau humor" e prepotência, instaura seu poderio sobre os homens.
No contexto da crônica rosiana - II Guerra Mundial - Hitler foi o supremo comandante do povo e do Reich alemão. Hitler foi deificado durante a vida. Foi Wotan, e seu mal humor consistiu em destruir tudo em nome da Paz.

CRÔNICA POLIGLOTA

Alguns exemplos.
Começando pelo nome das personagens:
Hans, do alemão para o português - João, que, do hebraico, significa agraciado por Deus. Indica uma pessoa que possui nobreza de caráter.
Márion, do alemão para o português - Maria, que do hebraico significa amargura, mágoa, senhora. Indica serenidade, força vital e vontade de viver.
Blitz [alemão]- bombardeio.
Mene/ Tequel/ Parsin - [contado, pesado, dividido] -  palavras com raízes de verbos aramaicos.
Fuehrer [alemão] - lider.
Les Français, vous savez [francês] - O povo francês/ Os franceses sabem.
Je t'aime [francês] - Eu te amo.
Tailleur - [francês] - figurino/paletó feminino
Cortina d'Ampezzo [italiano] - comuna italiana, equivale a um município no Brasil.
Cabala - [origem hebraica] - livro de sabedoria

LEMBRANÇAS DA QUASE NAMORADA

Márion:  "Foi quase minha namorada, durante um dia, à  beira do rio Alster, em 1938." [p.3]
Geralmente considera-se a data 1º de setembro de 1939 como o ponto inicial da II Guerra Mundial. O autor inicia a crônica relembrando os momentos que antecederam a guerra, pois já se ouvia falar na guerra. 
Por que quase namorada? Quando, o galante cronista João, quis conquistar Márion, percebeu que chegou atrasado, pois outro João [Hans, em alemão] havia chegado primeiro, conquistou o coração de Márion e com ela casou.

BELEZA POÉTICA NA CRÔNICA "O MAU HUMOR DE WOTAN"

Na crônica "O mau humor de Wotan", Guimarães Rosa reconstrói a história retocada por beleza poética. Além de denunciar as atrocidades do nazismo em sua crônica, o autor não deixa escapar sua intenção de exaltar a Alemanha de seus sonhos. Perceba, no fragmento abaixo, a linguagem poética presente nessa crônica, mesmo em meio ao clima tenso da Segunda Guerra Mundial.

Márion: "Loura entre canário e giesta e mais um tailleur de azul só visto em asas de borboletas." [p.3]

O cronista descreve a fauna e a flora. Canário é uma ave, que entre as cores mais conhecidas é o amarelo. Giesta é uma planta com flores amarelas do mesmo tom amarelo das penas do canário. Tailleur, palavra francesa que significa paletó feminino [azul], comparado as asas de borboletas.

VOCÊ SABIA?

Que quando a crônica passa do jornal para o livro impresso, ampliam-se novas possibilidades de leitura, permitindo ao leitor dialogar com a crônica de forma mais intensa, ambos agora mais cúmplices no solitário ato de reinventar o mundo pelas vias da literatura. 
Que a crônica "O mau humor de Wotan" foi inicialmente publicada no Jornal Correio da Manhã em 29/02/1948 e depois republicada no Livro Ave, palavra - 1ª edição [1970]. Observe este demonstrativo com expressões que sofreram mudanças quando passaram do jornal para o livro impresso. A correção foi feita pelo próprio Guimarães Rosa.

No Jornal
Quem irá, porém, esmiuçar o grão de areia gerador, no seio de uma montanha, ou descobrir num esquema o nó causal, no cruzamento dos fios, dos milhões de fios que fiam as Nornas?

No Livro
Quem irá, porém, esmiuçar o grão primigerador, no âmago de montanha, ou o nó causal num recruzar-se de fios, dos milhões desses que fiam as Nornas? [p.5]

As Nonas eram deusas da mitologia nórdica. Controlavam a sorte, o azar e a providência, quer dos homens quer dos deuses. Teciam suas tapeçarias [seus fios] junto às raízes da árvore Yggdrasil, uma árvore colossal, que na mitologia nórdica era o Eixo do mundo.

Lances interessantes na Crônica "O mau humor de Wotan"

Em algum ponto da leitura da crônica, observamos que Guimarães Rosa referiu-se a expressão bíblica encontrada no "Livro de Daniel", capítulo 5, versos 25 a 28. O escritor usou três palavras como raízes de verbos aramaicos. Mene/Mane (palavras variantes) que significam "contato". Tequel/Téquel - "pesado". Parsin/Ufarsin/Peres/Fares (palavras variantes) cujo significado é "dividir".  Peres é a forma singular de Parsin.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

AVE PALAVRA - CAPA DA 1ª EDIÇÃO




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                 "O mau humor de Wotan"
                             Uma breve leitura interpretativa


Crônica inicialmente publicada no Correio da Manhã, em 29 de fevereiro de 1948, é o texto mais longo das quatro crônicas selecionadas para esse estudo. Constitui 104 parágrafos, reunidos nas páginas 3 a 12, somando 10 páginas da primeira edição do volume Ave, palavra, de 1970.

A história se passou na Europa, no século XX, quando a Polônia foi invadida pela Alemanha, dando início à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As ações narradas e descritas de forma densa, intercalando os diálogos com maestria, aconteceram, especificamente, na cidade de Hamburgo, onde o narrador viveu suas experiências ao lado dos amigos europeus.
As personagens que fazem parte da história são: o narrador em primeira pessoa; o soldado Hans-Helmut Heubel; Márion Madsen (esposa de Hans-Helmut Heubel); Détty (filho do casal Hans e Márion;

Frau Madsen (mãe de Márion); Annelise (amiga de Márion); Capitão K.(esposo de Annelise); Dr. Schwartz (Schw) (pai de Annelise).
A crônica rosiana apresenta o percurso de vida de Hans-Helmut Heubel e Márion Madsen. Hans foi convocado por duas vezes para apresentar-se junto ao exército alemão. O narrador é amigo do casal e acompanha o sofrimento de Márion que ficou angustiada por ver o marido partir para guerra. Os tempos são difíceis e as personagens refletem a complexidade da situação que as envolve.
Partindo da análise do título da crônica "O mau humor de Wotan", pergunta-se: Quem é Wotan?
Segundo a análise feita por Carl GustavJung é o deus pagão dos germânicos, "um deus das tempestades e da efervescência que desencadeia paixões". Pode-se relacionar Wotan com o fenômeno nazista. Wotan é uma personificação de forças psíquicas, corresponde a uma natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura.
 Wotan, nome alemão de Vótan-Odin — o deus mitológico, surge como símbolo da força germânica, que num capricho de "mau humor" e prepotência, instaura seu poderio sobre os homens. Nesse sentido, observamos a presença do deus Wotan analogamente ao modo como os Gregos percebiam seus deuses, isto é, como personificações das forças terrenas. Temiam os castigos que provinham dos deuses, punições que, às vezes, não afetavam apenas um único indivíduo, mas poderiam até mesmo atingir toda a comunidade.
Para manter a ordem dentro da sociedade, as regras e os ritos usados para demonstrar o respeito para com as divindades, eram rígidos e deveriam ser seguidas fielmente. Daí o vínculo estreito entre os homens e os deuses.
Em 19 de agosto de 1934, foi realizado um plebiscito em que o povo alemão aprovou a posse de Adolf Hitler para o cargo de Presidente. Segundo os dados históricos, mais de 38 milhões, votaram a favor e apenas 4 milhões contra. A partir de então, Hitler exigiu de todos os oficiais e membros das forças armadas um juramento de fidelidade para com ele próprio. Eis o juramento: "Faço perante Deus este sagrado juramento de render incondicional obediência a Adolf Hitler, o
Fuehrer do povo e do Reich alemão, supremo comandante das forças armadas...". Hitler foi deificado durante a vida. Foi Wotan, e seu mal humor consistiu em destruir tudo em nome da Paz.
Configura-se, nesse caso, o mito racista do arianismo, o qual foi revalorizado e difundido no Ocidente principalmente pela Alemanha. O homem ariano desejava ser o modelo exemplar, devendo por isso ser seguido e imitado por todos, pois, acreditava-se que dessa forma se recuperaria a pureza das raças, da força física e de um princípio onde tudo fora glorioso. Assim, Wotan é o deus da guerra alemão, encarnado naqueles propensos a acondicioná-lo.
O narrador, em primeira pessoa, inicia a história contando que Hans-Helmut Heubel relia a Cabala
50 ou a Bíblia e cria num destino plástico e minucioso, produzido pelo homem e
por saudade relembrou a série de causas que trouxeram a conhecê-lo. Tendo Márion Madsen como referência, foi em busca da origem, da data e recordou os tempos passados.
Márion foi quase namorada do narrador, durante um dia, à margem do rio Alster, em 1938 quando já se falava com ira na Inglaterra, por causa da Tchecoslováquia. Mesmo com o insistente galanteio do narrador, Márion hesitou em ceder às facilidades do amor, porquanto se apaixonou por Hans-Helmut Heubel. Márion dizia que iria se casar e ter filhos. Seguindo o diálogo, o narrador perguntou-lhe se os filhos seriam para obedecer ao
Fuehrer, Márion respondeu-lhe — "O Fuehrer não encontra tempo para amar... O Fuehrer sagrou-se à política...".
Márion e Hans-Helmut casaram-se antes do ataque à Polônia e viajaram para Bruxelas em lua de mel. O narrador afirma que por causa do namoro que não deu certo, veio a conhecer Hans-Helmut, o melhor amigo que descobriu na Europa. Antes de ingressar no exército alemão, Helmut trabalhava com o pai, que era proprietário de um viveiro de plantas em Halstembeck.
Quando Márion e Hans voltaram a Hamburgo, a Polônia estava vencida. O povo desejava a paz, enquanto Hitler intencionava sua paz forçosa, pairando em Berchtesgaden.
 
Hans-Helmut apresentou-se pela primeira vez ao exército alemão, mas não o recrutaram. Na busca de entender sobre os discursos políticos em evidência naquele momento, o narrador referiu-se a uma luta travada entre Hitler e Churchill: "Lutava-se em sinuoso, pelo direito de uma alma, nos amáveis serões em que brincavam-se adivinhações inocentes ou se jogava o
skat [jogo de cartas]". Assim, à medida que o narrador e Frau Madsen, mãe de Márion, se voltavam para Churchill, Hans e Márion inclinavam-se para Hitler.
O narrador menciona, a ira da Inglaterra por causa da Tchecoslováquia, a esse respeito pode-se acompanhar o que esclarece o historiador britânico Eric Hobsbawm:

[O] "Acordo de Munique" foi o pacto em que França e Inglaterra, representantes da Tchecoslováquia, consentiram, em nome da paz, com a transferência de partes da Tchecoslováquia para Hitler. "O acordo de Munique, despedaçou a Tchecoslováquia e transferiu grandes partes dela para Hitler, mais uma vez pacificamente". O resto foi ocupado em março de 1939. Quase imediatamente uma crise polonesa, mais uma vez resultante de mais exigências territoriais alemãs, paralisou a Europa. Disso veio a guerra

europeia de 1939-1945.
 
 
Nesta crônica, há um evento importante, que ganha o olhar subjetivo do autor. Assim, o leitor acompanha o acontecimento, como uma testemunha guiada pelo olhar do cronista que tem a pretensão de registrar de maneira pessoal o acontecimento. O cronista dá ao fato uma perspectiva que o transforma em fato singular e único.
Desse modo, a crônica "O mau humor de Wotan", coincide com um contexto histórico importante — a Segunda Guerra Mundial. Observou-se na leitura do texto que há uma crítica à desumanização na cidade grande, aos direitos civis, ao conflito de classes, ao que acontecerá com o homem após a guerra, e, em meio a toda essa situação, somos apenas números e não pessoas, pois, como resultado, temos o rompimento de valores.
A palavra "rio" é uma constante nos textos rosianos. Vale ressaltar o que Guimarães Rosa afirmou em diálogo com Günter Lorenz: "quando escreve, repete o que viveu antes".
 Para o escritor mineiro,
[o]s grandes rios são profundos como a alma do homem, na superfície são vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens, porém amava mais uma coisa nos rios: sua eternidade.
 
O rio simboliza nossa existência com todas as peripécias de nosso destino, é um símbolo da própria vida. Nesse ambiente, o narrador cronista conheceu Márion Madsen, à beira do rio Alster. Não namoraram nem casaram, mas se tornaram grandes amigos.
O narrador relembrou que encontrava frequentemente com Hans-Helmut Heubel e várias foram as conversas entre eles. Contava-lhe sobre o Brasil, o amigo europeu escutava com interesse e seguiam a conversa entrando pelos grandes assuntos internacionais e universais.
Prosseguindo o estudo, vale mostrar o significado do nome de Hans Helmut e Márion. Hans,
traduzindo do alemão para o português, tem-se João, que, do hebraico, significa agraciado por Deus, indicando uma pessoa que possui nobreza de caráter. Helmut significa 
alegria, proteção. Como palavra composta: "Hel" em alemão é um adjetivo que significa inteligente e "Mut" — esforço, coragem.
Pelo perfil do nome, pode-se compreender Hans em sua postura filosófica, como um homem intelectual que dominava a cultura letrada do século XX. Não compactuava com as ideias que levariam o homem a continuar praticando os atos mais irracionais que se pudesse imaginar. Nomeou Itália, Goethe, Teutos, Cimbros, Música. Tinha preferência pelo que aparentava jovialidade, alegria, leveza. Transpirava as delícias do mundo, o vinho, a paisagem, o amor e o dinheiro.
Não apoiava ideologicamente o exercício da força e não tinha por ela nenhuma espécie de fascinação. Era capaz de sentir, apesar do caos, sofrimento e dor provocado pela guerra, a beleza da paz como forma de tranquilidade humanizadora.
Analisando o nome de Márion
 do alemão para o português, Maria. Do hebraico — amargura, mágoa, senhora. Indica serenidade, força vital e vontade de viver. Pode-se relacionar ao fato de Guimarães Rosa descrevê-la como "romântica, tonta [cautelosa/criteriosa] e femininamente prenhe [cheia] de prudência", pois experimentava aos poucos trazer o marido à linha de Heil Hitler mais enfático. Essa descrição invalida uma trajetória de engajamento nazista em Márion e aviva-lhe a prudência como critério de sobrevivência.
Hans-Helmut Heubel foi recrutado pelo exército em dezembro e partiu despreocupado.
Hans se colocara, sob poder de sua boa estrela, de seu destino: trabalhou para o Estado-Maior da Divisão, dobrava funções de chofer e dactilógrafo e ganhava maior probabilidade para sair vivo da guerra. Isso tranquilizava o narrador e Márion, porquanto consideravam o aspecto físico de Heubel: "míope e de medíocre físico, com lentes grossas." Já no escritório, agradava imaginá-lo: "por sua prezada silhueta mercantil-metafísica, acudindo à palavra "burguês"
 ou seja, era um trabalho condizente com o perfil de Hans.
Passaram o inverno, o frio, os trens com soldados pela Lombardsbruecke.
 Às vezes, Márion não sabia de nada. Sabia apenas que Hans-Helmut certamente estaria vivo, com saudade e saúde. Esteve na França, alojado em Chantilly. Depois da blitz [bombardeio] e do armistício [cessar fogo, trégua], dele receberam carta, demonstrando crescente amor pela França.
O narrador recomeçou a aceitar a tese do amigo europeu: "Hans-Helmut não dava, no

coração, mínimo pouso à guerra"
 por isso o destino o retirou temporariamente da guerra, e assim, Hans se protegeu, mesmo estando no meio dela.
Decorreu que a 117ª Divisão retornou a Hamburgo. Hans, além dos presentes de Márion, trazia as lembranças da França no coração, requintara-se em várias coisas. Aprendera expressões francesas como:

"Les Français, vous savez... Tja, die Franzosen... Sabem beber, inventaram essa arte... Um cálice, antes do jantar, l’apéro, un verre... O conhaque, à noite: Encore une fine! Pà"asit, ma p’tite!" — tocava copo com Márion. — "Tu es pas mal... Je t’aime...
Nesse primeiro retorno, reunido com os amigos, entre alegrias e conversas, alguém perguntou: —"E a guerra?". O soldado Hans-Helmut Heubel respondeu: "— Nossa Divisão vinha na retaguarda... no caminho quase não houvera combates... — Da guerra, mesmo, avistei só uns cavalos mortos, e cachorros, felizmente...".
 
Para o narrador era um nenhum relato, dito de encurtar conversa. Contudo, tomara força e forma: solta, concisa. O cronista recordava o borgonha que cheirava a cravo, tinha gosto de avelãs, de saliva de mulher amada. E a rádio de Breslau
66 enviava-nos cançãozinha:
"Ach Elslein, liebes Elselein,
 
[Oh, pouco mais, querida Elselein]
wie gern war ich bei dir!"

 [Como eu era feliz com você]
O narrador nunca o notara mais honesto. O soldado Hans-Helmut ignorou a guerra, resumiu em nada sua experiência no campo de batalha, negou esta realidade e continuou fiel à disciplina de seu pensamento, isto é, sua filosofia de vida.
O cronista narrador parece nos dizer que a guerra, de acordo com Walter Benjamin, não traduz nenhuma experiência narrável.: "No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável".
 
Hans-Heubel e o amigo brasileiro passaram a se encontrar com mais frequência. Em conversas amistosas, discutiam assuntos importantes. Hans argumentava de maneira justa e 
desconsolada: — "Sul-americano, você deseja a vitória dos países conservadores. Mas, nós, alemães, mesmo padecendo o Nazismo, como podemos querer a derrota? Que fazer?"
 Compreende-se que Heubel não disse que concordava com os objetivos nazistas, apenas afirmou que, como alemão, não gostaria de perder a guerra.
O cronista narrador buscava contra Hitler um "
mane-téquel-fares, a catástrofe final dos raivados devastadores"71. Todavia calava-se, com o amigo a citar Goebbels, que induzia a Alemanha, com inteligência miasmática e inumana, com que "Logge, o deus do fogo, instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibelungen".
 
É interessante notar que, em entrevista com Guimarães Rosa, Lorenz diz que "todos os assuntos enumerados tiveram grande importância na vida do escritor mineiro: a diplomacia, os cavalos, as religiões, os idiomas." No entanto, Guimarães Rosa, em resposta, pede que "não esqueça seus cavalos e suas vacas, pois quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros.".
Quando alguém lhe narrava algum acontecimento trágico, Guimarães Rosa apenas dizia: "Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo!".
Ao contrário, Hans-Helmut Heubel para encurtar qualquer conversa sobre o horror da guerra, utiliza a imagem dos cavalos como estratégia para não narrar a tristeza do mundo já que não descreve pessoas mortas, famintas, doentes, desesperadas, mutiladas, sofrendo a maldade e o horror da guerra.
O narrador referiu-se a expressão bíblica encontrada no "Livro de Daniel", capítulo 5, versos 25 a 28. Para isso, é bom lembrar do que trata a história bíblica:

Havendo Belsazar provado o vinho, mandou trazer os vasos de ouro e de prata que Nabucodonosor, seu pai, tinha tirado do templo que estava em Jerusalém [...] para que bebessem por eles o rei e os seus grandes, as suas mulheres e concubinas.
 
Em meio ao banquete oferecido pelo rei Belsazar, um dedo humano aparece escrevendo na parede do Palácio advertências que o deixaram assustado, pois não compreendia o significado de tais palavras. Assim,


ordenou o rei, com força, que se introduzissem os astrólogos, os caldeus e os adivinhadores: e falou o rei e disse aos sábios de Babilônia.. Qualquer que ler esta escritura, e me declarar a sua interpretação, será vestido de púrpura, e trará uma cadeia de ouro ao pescoço, e será, no reino, o terceiro dominador.
 
Não havendo quem interpretasse o que estava escrito na parede, alguém lembrou e chamou Daniel, o profeta de Deus, que recusando a tentativa de suborno do rei, interpretou o significado das frases escritas na parede do palácio. Essa foi a última noite dos babilônios e do rei Belsazar. Eles encheram a taça de sua iniquidade.
O escritor Guimarães Rosa usou três palavras como raízes de verbos aramaicos.
Mene/Mane (palavras variantes) que significam "contado". Tequel/Téquel — "pesado". Parsin/Ufarsin/Peres/Fares (palavras variantes) cujo significado é "dividir". Peres é a forma singular de Parsin.
Inscreve-se a expressão bíblica no trecho da fala do sul-americano quando em conversa amistosa com Hans-Helmut.
Mene: "Contou Deus o teu reino e deu cabo dele."
Tequel: "Pesado foste na balança e achado em falta."
Peres: "Dividido foi o teu reino e dado aos medos e persas."
 
Porém, à busca verbal de uma punição fulminante para o lider nazista segue-se um calar adversativo de evidente frustração por parte do narrador.
Por meio da leitura da crônica "O mau humor de Wotan", percebeu-se que a história se repete em relação ao domínio entre as nações. Pode-se comparar Hitler e Belsazar, entre outros aspectos, no sentido de como se sentiam, por causa da grandeza que tomavam para si, pois todos os povos, nações e línguas tremiam e temiam diante deles: a quem queriam 
matavam, davam a vida, engrandeciam, e abatiam. Mal humorados, cometiam as piores atrocidades, configuram-se como Wotan, o deus da guerra, da insatisfação, do ódio àqueles que se opusessem ao seu domínio.
O tempo passa. Após amistosa conversa, sem avisos, Márion diz que aceitou o convite para jantar na casa de Annelise. Lá, estariam o capitão K., marido de Annelise, Dr. Schwartz, pai de Annelise, médico retirado, que gostava de cursar conferências sobre quaisquer temas. O Dr. Schw. Seco,
unsimpathisch [não simpático], não causou boa impressão ao narrador.
— "Ah, se ao menos até o Natal acabasse esta guerra!". Clamava Márion, longe das presenças da Gestapo, preparando as roupinhas do bebê.
 
"Notem: antes do Natal, a mão do
fatum volveu a Heubel, num meio gesto: foi ele chamado de novo às filas, para o acampamento de Münster, onde veteranos infantes voltaram a aprender, de a a z, dia sobre dia, as partes de todo combater". Nesse período, Hans-Helmut veio a Hamburgo para conhecer o filho Détty.
O narrador encontrou-se, por acaso com Márion e a mãe, no teatro.
Frau [senhora] Madsen informou que a Divisão de Hans-Helmut moveu-se para outra parte. Assim, o narrador apressou num cartão duas linhas para seu amigo. Depois, como a peça teatral era viva e diferente do tempo, um pouco se alegraram. Márion falava do marido, dela, do filho.
Os dias se passavam e o narrador não sabia o que fazer para ajudá-los já que Márion não disse tudo a ele. Porém, insistiu em perguntar: — Para onde o mandaram, Marionzinha? Pode você confiar isso a um "estrangeiro inamistoso"? Ela responde: — "Que sei, que sei? — esta guerra não acaba!".
 
Então, Márion decide contar para o amigo, o que ele não pôde compreender durante o jantar na casa dos K., pois a conversa, segundo o narrador, ficou longe de seus ouvidos.

— Tem você lembrança de quando Hans-Helmut e eu estivemos com os K.? Você sabe, o Dr. Schw., pai de Annelise? Veja um homem crasso, persuadido, sem grão de alma. Vivendo de cor os conceitos: glória, o que mal sei, mais-pátria e raça... os desses. Discursam, pisando na mão de uma criança...
 
Entretanto, Hans-Helmut tendo a esposa ao lado, se mostrava feliz, ingênuo. Durante o café, o Dr. Schw pediu que Hans apresentasse suas narrações de campanha. O soldado Hans- 36

Helmut sorria para Márion, fumava seu charuto e respondia: — "Ora, eu, da guerra, só vi uns cachorros e cavalos, mortos, felizmente...".
 O Dr. Schwartz ficou insatisfeito com a resposta de Helmut. Logo Annelise tornou-se indiferente, transformou-se a boa vontade.
Daí a meia semana, "Hans-Helmut foi reconvocado. Causal?".
 Ao apresentar-se, avisaram-no que não continuaria em Estado-Maior e sim na tropa. Qual teria sido o plano do capitão K.? Transferiram Hans-Helmut à companhia sob comando dele. Todavia, Márion Madsen decepcionou-se como a atitude do capitão K. quando disse que entre ele e Hans "não haveria espécie de intimidade, tibieza, epicurismos".
Para Helmut, a princípio, pareceu bom ficar sob as ordens de um amigo. Mas o Capitão K. zangou-se com o espírito livre de Hans, que como se seguisse a doutrina do Epicuro,
buscasse garantir sobre tudo a "tranquilidade de espírito", o que, equivale dizer: relegar os ideais nazistas para um segundo plano. Nesse sentido o Capitão K. "executou seu trabalho" como técnico perfeito ante a ameaça do inimigo.
Márion Heubel pediu ajuda a Annelise, esposa do Capitão K., mas teve de romper a amizade, porque Annelise a desprezou. Buscaram outros recursos, mas tudo em vão. O que oprimia Hans-Helmut não era o medo, o risco ou a ânsia de livrar-se, mas o horror enorme à maldade. Dessa maneira, "puderam matá-lo, primeiro, nele, alguma coisa".
 Conforme acreditava Márion, "Mataram nele a plasticidade de não ver o horror."  Percebe-se esta morte lenta em suas últimas cartas. Finalmente, a guerra o assombrava.
O narrador tenta confortar a amiga dizendo que o marido voltará bravo e bom, porém Márion afirma: — "Mas, voltar, demora... Sinto que vou sofrer muitos dias, depois muitos dias, depois muitos dias... Sofrer no sangue, sofrer no sonho... Tenho de tremer de sofrimento...".
 
Correm conquistas, entrou outubro, multidões vão caindo. O narrador recebeu outro cartão do amigo Heubel, que dizia:

E o pior é ter de avançar, dias inteiros, pela planície que nunca termina. Meus olhos já estão cansados. Raramente enxergo um trigal, choupanas. Chove, e a lama é aferrada, árdua. O russo se retrai com tal rapidez, que nunca os vemos. Quando você estiver com Márion, diga-lhe que nela penso  todo o tempo, e no menino.

Helmut descreveu uma imagem da guerra, mas não se referiu a pessoas mortas. O diplomata respondeu-lhe: "Márion e eu esperamos conserves tua consciente crença".
 Logo as cartas foram devolvidas pelo correio, destinatário inalcançável. Márion se desesperou e chamou o amigo que com pesar anunciou a triste notícia:
Ele, Márion. Não voltará; não o veremos. Veio a exata fórmula, papel tarjado. Hans-Helmut Heubel passou, durante um assalto, e deram-lhe ao corpo a cruz-de-ferro. Seus traços ficarão em chão, ali onde teve de caber no grande fenômeno, para lá do Dnieper, nas estepes de Nogai. Ninguém fale, porém, que ele mais não existe, nem que seja inútil hipótese sua concepção do destino e da vida. Ou que um dia não venham a ser "bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra"

Ao longo da história da humanidade, o século XX talvez tenha sido aquele em que os homens conseguiram criar e ampliar, com incomparável habilidade e inteligência, a capacidade de destruição. Helmut, o menos belicoso dos homens, era manso e tinha o direito de viver segundo sua filosofia de vida com paz e tranquilidade da alma, vivendo em repouso e sem guerra.
Para o historiador britânico Eric Hobsbawm,

a catástrofe humana desencadeada pela Segunda Guerra Mundial é quase certamente a maior da história humana. O aspecto não menos importante dessa catástofre é que a humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matança, a tortura e o exílio em massa se tornaram experiências do dia a dia que não mais notamos.
 
Guimarães Rosa trouxe à tona conflitos de classe, descortinou que a humanidade sobreviveu. Contudo, o grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas da guerra mundial, quando suas colunas ruíram e o diplomata brasileiro enfrentou uma cultura intolerante com relação ao outro.
A crônica é concluída com referência a outra citação bíblica escrita no livro de Mateus, capítulo cinco, verso cinco — "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra". O narrador chegou a acreditar que Hans ficaria livre dos campos de batalha. Mas a amargura, a miséria, o caos em que o mundo se encontrava o deixou indignado ao relembrar toda a experiência que passou em Hamburgo.