quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CRÔNICA "O MAU HUMOR DE WOTAN" NA ÍNTEGRA



ROSA, João Guimarães. Ave, Palavra; nota introdutória de Paulo Rónai. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. 274 p.

[3] O MAU HUMOR DE WOTAN


Hans-Helmut Heubel relia a Cabala ou a Bíblia e cria num destino plástico e minucioso, retocável pelo homem. Por sau­dade, com isso me ponho em remontar à causa ou série de causas que me trouxeram a conhecê-lo. E retorno a Márion.
Márion Madsen, gentil afino de origens — alemã, dina­marquesa e belga — foi rapidamente quase minha namorada, durante um dia, à beira do Alster, em 1938. Maduros os mo­rangos, tendo flor os castanheiros, já se falava com ira na In­glaterra, por causa da Tchecoslováquia. Mas os jovens casais remavam seus barcos para debaixo dos salgueiros-chorões, pa­ravam por lá escondido tempo, só saíam para se encostar no cais da Uhlenhorster-Faerhaus, onde garçons de blusa branca serviam-lhes sucos de maçãs e sorvetes, enquanto a orquestra, ao livre, solvia Wagner e Strauss. Mesmo assim, Márion, loura entre canário e giesta e mais num tailleur de azul só visto em asas de borboletas, hesitava em ceder primaverazmente às gra­tidões do amor.
— “Vou-me casar e ter filhos...” — prometia.
— Para obedecer ao Fuehrer, Márionchen?
Tão graciosa que fosse, os olhos pegavam seriedade gris demais. Levou minuto para responder, e dava:
— “O Fuehrer não encontra tempo para amar... O Fueh­rer sagrou-se à política...”
Não se podia insistir. Márion furtava a mirada, e tornou a mencionar casamento. Casou-se, dali a mais de ano, quinze dias talvez antes do ataque à Polônia. Passou a ser Frau Heubel, mulher de Hans-Helmut. Do modo, por falho namoro e pela forte camaradagem seguinte, vim a conhecer um meu ami­go, que a Europa me descobriu.
Conseguiram eles do Finanzamt algumas divisas, e foram para lua-de-mel em Bruxelas. Estavam em paz por lá, durante Mlawa, durante Kutno e a destruição de Varsóvia. E nisso houve qualquer lógica recerta, porquanto Hans-Helmut formara-se o menos belicoso dos homens, nada marcial, bem mesmo nem germânico, a não ser pelo estimar a ordem em trabalho contínuo, [4] mais uma profundidade nebulosa no indagar a vida e o pausado método de existir.
Nos gostos, porém, tocavam-no subtilidades de latino: de preferência ao sólido, escolhia o leve e lépido, o bonito; acon­selhava Márion a maquilar-se; e, sempre que vez, como tra­dição, baixava à Itália amada de Goethe, de Teutos e Cimbros, para comer melhor e tentar esportes de inverno, entre as mais formosas mulheres do mundo, em Cortina d’Ampezzo.
Ao voltarem a Hamburgo, a Polônia estava finda. Falava-se na paz, o povo sonhava paz, e Hitler, pairando em Berchtesgaden, intuicionava sua paz forçosa.
Hans-Helmut apresentou-se, mas não o recrutaram: aguardasse convocação. Em feito, a sorte com ele trabalhava; e que a merecia, a mais de entreter a certeza íntima e preconce­bido otimismo — meios que põem em favor da gente o exato destino correto.
Por todo o outono andávamos, e velhas eram nossas con­versas. Meu amigo tinha sensato interesse por tudo o que do Brasil, e eu votava-o a um dia para cá migrar, dono de qual­quer fábrica, de bebidas, por exemplo. Então ia-se a outra cer­veja e entrando pelos grandes universais assuntos. Fora uma judia a derradeira amiguinha de Heubel, que, e pelo dito, não simpatizaria com o Partido. Mas Márion, romântica, tonta e femininamente prenhe de prudência, experimentava aos pou­cos trazê-lo à linha de heil Hitler mais enfático. Minha aliada era a mãe, Frau Madsen, que me fazia repetir, seguidos, cada discurso de Churchill. Lutava-se, em sinuoso, pelo direito de uma alma, nos amáveis serões em que brincavam-se adivi­nhações inocentes ou se jogava o skat.
Por contra, Hans-Helmut depressa converteu Márion à sua essencial filosofia. De maneira, ela menos se acabrunhou, quando o chamaram enfim à farda, em dezembro.
— “Nada lhe acontecerá...” — recitava, sacudindo a amarela cabecinha, sorrindo assim e parda-azulmente nos olhos. E foi despreocupado que Hans-Helmut partiu, envergava o feldgrau, plantado nas grandes botas de campanha; só com sombra de prévia saudade, decerto.
O inverno de 1939-1940 foi muito. Passeando em cima do Alster gelado, Márion contava-nos do marido. Não era a vida cômoda, no acampamento de Münster, onde metade da tropa adoecia de pneumonia ou gripe, enquanto o resto se adestrava sem cessa, suando a se arrastar na neve, horas, a 30º sob zero, naquela charneca de Lueneburg.
[5] Mas Hans-Helmut se colocara, por poder de sua estrela: distribuído ao Estado-Maior da Divisão, dobrava funções de chofer e dactilógrafo. Escapara então ao rigor do drill prussia­no, e ganhava número de probabilidades para sair vivo do comprido da guerra, chanças e estrapaças.
Isso, aliviava-nos, porquanto Heubel míope e de medíocre físico, com lentes grossas. No escritório, sim, agradava imaginá-lo, sua prezada silhueta mercantil-metafísica, acudin­do à palavra “burguês”, mais vivo sublimada, no que seu sen­tido tenha de menos obtuso.
Mas, passaram o frio, o inverno, pela Lombardsbruecke trens com soldados, os dias de Oslo, Narvik e Lillehammer. Vezes, mesmo Márion sabia de nada. Só que Hans-Helmut vi­vo, com saudade e saúde. Não esteve na Noruega. Esteve na França. Depois de blitz e armistício, dele tivemos carta.
Achava-se aboletado, cerca de Chantilly, em castelo, onde havia um parque ameno e infindáveis vinhos, adega soberana. Eram cartas vagarosas, graças, inclusive, a crescente amor pela França. Recomecei a aceitar sua tese: Hans-Helmut não dava, no coração, mínimo pouso à guerra, e pois o destino fora da guerra o suspendia.
Quem irá, porém, esmiuçar o grão primigerador, no âma­go de montanha, ou o nó causal num recruzar-se de fios, dos milhões desses que fiam as Nomas?
Porque todo minuto poderia ser uma origem.
Por caso, talvez, aquele em que Márion conheceu Anne­lise. Difícil, mais, todavia entender: por que teve Márion de vir a conhecer Annelise? E entanto tudo se veja começado descui­dada ou deixadamente, em Heubel mesmo — para aceitarmos sua crença pia.
Annelise, tão amena quanto Márion, era mulher do Capi­tão K., também hamburguês, também na França, em Chantilly. As duas se fizeram amigas; cartas vindo e indo, Hans-­Helmut e o Capitão inteiraram-se amigos, talmente. Eram, bem, da mesma idade, as esposas tinham achado a fraterni­zação, e mesmo não seria isso incomum, nos exércitos do II.º e 1/2 Reich. Mas, pois, decorreu que a 117ª Divisão retornou a Hamburgo, para casernar, enquanto nós, nós outros, chorá­vamos ainda a França, e a Luftwaffe quebrava o seu martelo na bigorna inglesa.
Hans-Helmut voltou corado, mais gordo. Sentava-lhe ra­zoável o uniforme, realçando o ar de bonomia clara, que fazia a gente gostar mais dele. Trouxera, além dos presentes de Márion, um corte de pano para smoking e dúzia de garrafas do bom [6] borgo|nha. Trazia também a França. Sim, requintara-se, em várias coisas.
“Les Français, vous savez... Tja, die Franzosen... Sa­bem beber, inventaram essa arte... Um cálice, antes do jantar, l’apéro, un verre... O conhaque, à noite: Encore une fine! Pà”a­sit, ma p’tite!” — tocava copo com Márion. — “Tu es pas mal... Je t’aime...”
Contava que, em Paris, duas mulheres, sorte de elegantes, o tinham convidado, juntas, para hora íntima.
“Doch!... Acendi um cigarro, nongschalaantmantt... E respondi: — Oon leh vverrá... Oh, douce France!”
Márion sorria, segura de sua estricta lealdade nórdica. Os dois se namoravam, quais e quando. Ai alguém perguntou: —“E a guerra?”
Heubel endireitou o busto, alisou devagar a túnica, sério desesperadamente.
Gut... nossa Divisão vinha na retaguarda... no cami­nho quase não houvera combates... So war’s...”
De fim, pimpou na ponta do nariz um dedo, por engraça­do trejeito remexendo os lábios.
“Da guerra, vi apenas cavalos e cachorros mortos, fe­lizmente...”
Nunca o notara mais honesto, desvincado. Resumindo em nada sua experiência guerreira, negava a realidade da guerra, fiel ao sentir certo e à disciplina do pensamento. Tornou ao copo, beijou a mão de Márion, e repetiu aquilo de corpos ani­mais, num tom medido, do modo com que falam os lentos hanseatas.
— “Da guerra, mesmo, avistei só uns cavalos mortos, e cachorros, felizmente...”
Era um nenhum relato, dito de acurtar conversa. Contu­do, tomara força e forma: solta, concisa, fácil para guardada; e ficara assim coisa: que nem uma moedinha de dez pfennig, um palito, um baraço. Nenhum de nós porém pensava nisso. Recordo, o borgonha cheirava a cravo, tinha gosto de avelãs, de saliva de mulher amada. E a rádio de Breslau enviava-nos cançãozinha:

... “Ach Elslein, liebes Elselein,
wie gern war ich bei dir!”

Hans-Helmut trabalhava com o pai, proprietário em Halstembeck de um viveiro de plantas, e, como interessava aos alemães o reflorestamento, não lhe foi de muito obter um u.k. — licença de desmobilização temporária. Passamos a nos en­contrar com [7] mais freqüência. Amistosos, discutimos. Ele abria argumentação justa e desconsolada, lógica tranqüila: — “Sul-americano, você deseja a vitória dos países con­servadores. Mas, nós, alemães, mesmo padecendo o Nazismo, como podemos querer a derrota? Que fazer?”
Eu buscava contra Hitler um mane-téquel-fares, a catás­trofe final dos raivados devastadores. Mas, a seguir, calava-me, com o meu amigo a citar Goebbels, o sinistro e astuto, que induzia a Alemanha, de fora a fundo, com a mesma inteligên­cia miasmática, solta, inumana, com que Logge, o deus do fo­go, instigava os senhores do Walhalla, no prólogo dos Nibe­lungen.
Também findara o borgonha, bebia-se do mosela. Zu­niam nas noites os aviões da RAF, entre sustos e estampidos. Desfolhavam-se as tílias da Glockengiesserwall, os olmos da rua Heimhuder. E vinha-se para fim do outono, com tristeza e o escuro, como se descendo por subterrâneo.
E ora porém, pois, conforme, os maiores dias vão assim no comum, sem avisações; a não ser quando tudo pode ser conferido, depois. Márion disse:
— “Jantamos amanhã com Annelise e o marido.”
“Ach so,” — entredisse Heubel — “vamos à casa do Capitão K., meu amigo.”
Soube, mais, que com o casal K. morava o Dr. Schw., so­gro, médico retirado, que gostava de cursar conferências sobre quaisquer temas. Daí, aí, gravei ainda que Márion e a capitãzi­nha continuavam a avistar-se, nessa pausa da guerra. E, outro-tudo que a tanto se prendesse, foi falado longe dos meus ouvidos, ocupados, ali e aqui, a apanhar outras conversas.
— “Ah, se ao menos até o Natal acabasse esta guerra!” — clamava-se, longe das presenças da Gestapo. — “Ah” —rogava Márion — “esta guerra acabasse!”
Mas dizia e esplendia, ostensiva, preparando as roupinhas do bebê.
Notem:  antes do Natal, a mão do fatum volveu a Heubel, num meio gesto: foi ele chamado de novo às filas, para o acampamento de Münster, onde veteranos infantes voltaram a aprender, de a a z, dia sobre dia, as partes de todo combater.
— “Nosso Hans-Helmut continua guiando automóveis e dactilografando?”
— “Oh, sim, sim, sim...” — Márion se bendizia, olhos de ver anjos no ar, o ventre manso e tanto se arredondando.
Pelo inverno, fora o regelo e frimas, tudo era o ruim ven­to de leste e aquela rotina da guerra. Vi Márion menos vezes. [8] Acon|teceu, raro também, que Hans-Helmut viesse a Hambur­go, por breves licenças. Delas, uma para conhecer o filho — Détty, preclaro, ridor, tão gorduchinho — chegado, como via geral os meninos, guardando ainda o exser de algum país de ideidade.
Seguindo assim, seja, semanas, roncavam mais estragado­res os bombardeios do ar. Na penumbra do grande hall da Hauptbahnhof, maior era a muda procissão dos soldados que des-e-embarcavam. Inge, moça vizinha, encomendou ao na­morado dúzia de prendas búlgaras. Olhávamos para os Balcãs. Mas, entre o jornal e o rádio, crescendo os dias, todos penávamos de pensar em abril, como se suas primeiras flores já vindo envenenadas.
Por azo, em noite menos fria, foi que me encontrei com Márion e a mãe, no teatro. Estava fina e radiante. — “Viajo amanhã. Vou vê-lo...” — pois. — “Vai despedir-se. A Divisão de Hans-Helmut move-se para outra parte...” — informou Frau Madsen, quase ao meu ouvido, tal a poupar o supérfluo sofrer arranhado pelas palavras.
Apressei num cartão duas linhas para meu amigo, e entrei a revocar assunto, dando ainda como firme infalível a suposta invulnerabilidade de Heubel. Depois, como a peça era viva e diferente do tempo, um pouco nos alegramos.
No Outro intervalo não me admirei de ver, distante, Anne­lise. Estava com um senhor de idade, e expediu a Márion aceno e sorriso. — “Ë o pai?” — conferi. — “Sim, o Dr. Schw. Se­co, unsimpathisch? — concedeu Márion, para sua groselha. Nem isso, nem melhor — achei, com meu sanduíche de enguia defumada. Observando-o, que para nosso lado não olhava: ex­terno, espesso, sem feitio nem aura.
Márion falava do marido, dela, do filho. Frau Madsen implorava-me, recados de Londres. Despedi-me e caminhei, aproveitando a lua. Na estação de Dammtor, um trem sem fim atravessava a noite, comboio militar, canhões e tropa, rodan­do para o Sul, vindo da Dinamarca.
Enquanto a aguardar o alarma aéreo, eu costumava ouvir as corujas — huhuhuuuu — um ululo; não instavam agouro, imitavam apenas o vento nos arames da rua. Com a neve e o luar, podiam-se distinguir, empoleiradas nas árvores. E, au­rantemente, tristonhamente, tinha-se de pensar nas antigas ba­ladas, em que sempre vem um cavaleiro, solitário através de florestas, ou um conde palatino ou margrave transpondo o Re­no e tocando tom de luto na trompa de caça. Depois, adorme­ci, sonhando a dor das separações e os rouxinóis dos lieder. E as horas, abrolhosas, que a guerra diante de nós suspendia.
[9] Porém, nos dias, que propor ou adivinhar, se Márion mesma não disse tudo? Tão ainda dissesse, onde ao menos ajudá-los? O destino flui, o homem flutua. Nem mais irrogável e pesado há, que uma sombra.
— “Sabe, foi bom... Passamos a noite numa casa de cam­poneses, tudo tão certo, tão pobre... Levei vinho, farnel, jan­tamos. De manhã, oh, decerto nem achei triste a nossa despe­dida. Choramos...
— Para onde o mandaram, Marionzinha? Pode você con­fiar isso a um “estrangeiro inamistoso”?
— “Que sei, que sei? — esta guerra não acaba!
— Ele voltará bravo e bom, Márion.
— “Mas, voltar, demora... Sinto que vou sofrer muitos dias, depois muitos dias, depois muitos dias... Sofrer no san­gue, sofrer no sonho... Tenho de tremer de sofrimento...”
De remate, turvaram-se seus olhos.
— “Nisso, não quero pensar, não devia dizer a nin­guém... Mas, você crê, de verdade, em sorte e estrela?”
— Hans-Helmut, Márion, acredita.
— “Ah, pergunto: você — acredita?”
— Por que não? A fé e as montanhas...
— “Nem sei se está sendo sincero. Mas disse: Hans­-Helmut e...”
— Seu crer o salva Márion...
— “Meu amigo — sem querer, você aflige-me...”
— Mas, hem...
— “Eu não devia falar, pensar... Desta vez, ele partiu acabrunhado, profundo, sei que sem segurança. E sim... Temo que tenha medo...”
— Momentos de depressão contam pouco, ele permane­ce... — “Não digo. Seu rosto era outro, você visse. Meu ami­go, tem de ajudar-me, mandar-lhe cartas animadoras, mui­tas... Minha mãe e eu vamos rezar, de joelhos, noites inteiras, tudo vale! Não choro. Ah, marque o endereço: Feldpostnum­mer 16962 D, apenas.”
Vale, você intrépida pequena Márion, em seu apartamen­to da Hahnemannstrasse e entre berço e retrato, vocês três. Ora estronda a guerra, para lá do Danúbio: bombas massa­cram Belgrado. “...Prinz Eugen, der edle Ritter... “— clango­ram históricas fanfarras, alto-falando os sucessos especiais. Tratemos de Heráclito, de Sófocles — arre ondeia a suástica sobre Himeto, Olimpo e Parnasso — detém ninguém o correr dos carros couraçados. Vem os soldados cruzam-se com o re­gresso de [10] andori|nhas e cegonhas. Já se combatia em Creta. Mas, sob canhões e aviões, o incerto velho oceano, roxo mar dos deuses, talassava, talassava... E, do fundo de longes bata­lhas, tinia o telefone, trazendo-me voz aquecida:
— “Sou eu, Márion, recebi carta, leio! Você pensa... Teve também um cartão? Mas, diz quase nada! Fala numa cidade mediamente grande, pastores com a gugla, camponesas de lar­gos aventais floridos... Dá o movimento do porto, as plan­tações de cucuruza... Sim, tenta dizer-nos que está na Romê­nia... Em Constanza, você acha? Ah, tudo continuará bem, oh ia, ho ia, Deus a o proteger... Deixe, não, de responder logo, obrigada. Precisamos de ajuda...”
Sim, todos nós. Los! Vorwaerts! Milhões, de vez, pene­tram no Leste — rasgam a Rússia — máquinas de combate ro­lam através da estepe, como formigas selvagens. Porém dian­te, um duro defensor morria matando, ou se abriam só ruínas e o caos da destruição, como no segundo versículo: a terra mal criada — despejada e monstruosa — tôhu-vabôhu.
E correm conquistas, entrou outubro, multidões vão cain­do. Márion, tenho novidade... De setembro, 18. Outro cartão, a lápis:

“... E o pior é ter de avançar, dias inteiros, pela planície que nunca termina. Meus olhos já estão cansados. Raramente enxergo um trigal, choupanas. Chove, e a lama é aferrada, árdua, O russo se retrai com tal rapidez, que nunca os vemos. Quando você estiver com Márion, diga-lhe que nela penso todo o tempo, e no menino...”

Longo o rumo dos horizontes, o barro negro da Ucraina, pássaros de bandos revoando o incêndio de searas, e um co­ração de amante a contrair-se, grande como a paisagem sár­mata e a desolação sagrada da ausência.

“Meu caro Hans-Helmut, veio, faz três dias, teu car­tão. Márion pediu-me, quer cada linha de ti...” Difícil é ter e inculcar uma confiança, quando em volta só se pensam ima­gens de temor e sofrimento... Márion e eu esperamos conserves tua consciente crença. Márion...”
— Alô? Sim, é Márion... Pode vir ver-me? Minha mãe está no Harz, meu sogro em Halstembeck... Venha, é ter­rível...’’
Decerto. Só um lance poderia recortar-se assim, e espera­das palavras expliquem tal palidez, os olhos aumentados.
— “Você veio. Obrigada...”
— Que é, Márion, carta?
— “As que o correio devolveu: o empfaenger unerreich­bar”...”
[11] — “Destinatário inalcançável”... “Decerto não localiza­das as unidades, no tumulto da ofensiva...”
— Não, a organização é implacável perfeita. Tenho só es­perança: Hans-Helmut prisioneiro... Se não, se... Mas, então tudo está perdido?
— Mas, mal, Marion...
— “Estou comportada. Chorei, toda a manhã.”
— Você não chorou bastante...
“Não, é que agora tudo se quietou. Posso pousar no sofrimento. Ah: o ódio de Kriemhilde a Hagen... neste mundo de altos monstros!”
— Quem, bem, Márion?
— “Tem você lembrança de quando Hans-Helmut e eu estivemos com os K.!? Deus devia antes ter-me partido três os­sos!... Você sabe, o Dr. Schw., pai de Annelise? Veja um ho­mem crasso, persuadido, sem grão de alma. Vivendo de cor os conceitos: glória, o que mal sei, mais-pátria e raça... os desses. Discursam, pisando na mão de uma criança...
— E o outro, o capitão?
— “Perdoe-me, conto. Propriamente, tudo e nada. Des­crevia aquele as tantas façanhas da Wehrmacht, na França, na Bélgica. Annelise e o pai escutavam, em momentos o Dr. Schw., às doutrinadas, com intercalações. Meu Hans-­Helmut! ... Tendo-me ao lado, se mostrava feliz, ingênuo. Ao café, o doutor quis, não menos, suas narrações de campanha. Ah, e não lhe fiz sinal, não lhe tapei a boca!...”
— Hans-Helmut?
— “Sorria, para mim, fumava seu charuto... “Ora, eu, da guerra, só vi uns cachorros e cavalos, mortos, felizmen­te... “— foi disse. Vendo você o rolado olhar do Dr. Schwartz; daí, cerrou-se em emburro e carranca. Seu desdém era rancor, demonstrativo. Turvou-se e gelou-se, lá, de nada a boa-vontade de Annelise. A seguir, quase, saímos...”
— E, desde...
— Dali a meia semana, Hans-Helmut reconvocado. Cau­sal? Ao apresentar-se, avisaram-no: não continuava em Esta­do-Maior, sim na tropa. Teria urdido o quê, o capitão K.? Pois transferia-se Hans-Helmut à companhia sob comando dele, as­sim. Pensamos ainda isso a seu favor... Sabe como o capitão o viu? — “Aqui não haverá espécie de intimidade, tibieza, epicu­rismos!” — repelente, vexante.
— Sem treinamento, desjeitado para o exército, [12] aguer­ridíssi|ma! E no momento de ofensiva, à vanguarda... Por que você não tentou, Márion, não foi a Annelise?
— “Se fiz! Tive de com ela romper, quando também desprezou-me... Andamos depois a outros, nulos recursos. E era o que oprimia Hans-Helmut: não o medo, o risco, ânsia de livrar-se. Só horror enorme à maldade... Assim puderam matá-lo — primeiro, nele, alguma coisa... Mas, não! diga, di­ga, então...”
Ele, Márion. Não voltará; não o veremos. Veio a exata fórmula, papel tarjado. Hans-Helmut Heubel passou, durante um assalto, e deram-lhe ao corpo a cruz-de-ferro. Seus traços ficarão em chão, ali onde teve de caber no grande fenômeno, para lá do Dnieper, nas estepes de Nogai. Ninguém fale, porém, que ele mais não existe, nem que seja inútil hipótese sua concepção do destino e da vida. Ou que um dia não ve­nham a ser “bem-aventurados os mansos, porque eles herda­rão a terra”.

Um comentário:

  1. Como surgiu no filme a hipotese que ele foi transferido para a tropa porque alguem questionou que quando era motorista parou para limpar os oculos e ele retrucou de forma incisiva ou desrespeitosa e aconteceu isso como repreensao

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